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A História de Dona Gracia Mendes Nasi

 

 

Neste post contarei a história de uma das maiores figuras do Judaísmo de Portugal, a filantropista Dona Gracia Mendes Nasi.

 

No Início

Beatrice de Luna, que veio a ser conhecida em vida adulta como Dona Gracia Mendes Nasi, nasceu em 20 de Junho de 1510 na cidade de Lisboa, Portugal.

 

Seus pais, Álvaro de Luna (Agostino Alvaro Miques de Luna, cujo nome hebraico tinha sido Shmuel Nasi) e Philipa Mendes Benveniste, da nobre família Benveniste, eram da cidade de Aragon, na Espanha e se mudaram para Portugal em 1492 na esperança de fugir da conversão forçada ocorrida em solo espanhol. 

 

5 anos depois de chegarem a Lisboa, em 1497, os pais de Dona Gracia foram forçados a se converter ao Catolicismo juntamente com todos os judeus que viviam em Portugal. Como muitos, Álvaro e Philipa insistiram em praticar o Judaísmo dentro de seus lares e deram a filha Beatrice, em segredo, o nome hebraico de Hanna.

 

 

Casamento

Em 1528, Beatrice agora com 18 anos se casava com o tio Cristão Novo, Francisco Mendes Benveniste (pela lei judaica, embora soe estranho, tios e sobrinhas podem se casar, porem é proibido o casamento entre tias e sobrinhos).

 

Francisco Mendes era um rico comerciante e juntamente com seu irmão, Diogo Mendes, também administravam bancos. Francisco era o neto do renomado Don Abraham Benveniste de Castilho. 

 

Devido a recente descoberta do Caminho das Indias, os irmãos Mendes se tornaram figuras importantes no comércio de prata e especiarias. A prata era usada para pagar pelas especiarias.

 

 

Deixando Portugal, Rumo a Bélgica!

Em 23 de Maio de 1536, a Inquisição é estabelecida em Portugal. 

 

Devido a mudança do cenário político e aumento das perseguições, Francisco Mendes, juntamente com a esposa Beatrice e a filha pequena do casal, decidem deixar de Portugal.

 

O irmão de Francisco, Diogo Mendes, morava em Antwerp (na atual Bélgica), onde expandia seus negócios junto com o parente Abraham Benveniste e tinha tudo preparado para a chegada do irmão e família.

 

Porém antes de sair de Portugal, Francisco Mendes falece em 1536, deixando em seu testamento a cláusula que dividiria sua fortuna entre a esposa Beatrice e o irmão Diogo Mendes. Esta decisão tornou a jovem viúva de 26 anos em uma renomada mulher de negócios. Dona Gracia pediu ao Papa mudar os restos mortais do marido para uma nova localidade e quando a permissão lhe foi concecida, ela os transportou para o cemitério do Monte das Oliveiras, em Jerusalém.

 

Dona Gracia e Francisco tiveram somente uma filha, Ana Mendes, que em vida adulta mudou seu nome para Reyna Nasi.

 

Quando adulta, Reyna viria a se casar com seu primo Don Joseph Nasi, que foi um diplomata e administrador judeu-português. Ele foi uma figura influente do Império Otomano durante os mandatos do Sultão Suleiman I, o Magnífico e de seu filho Selim II. 

 

 

Negócios

Temendo a Inquisição, a agora viúva Dona Gracia deixou Portugal e após passar um curto período de tempo em Londres, seguiu para Antwerp em 1538, junto com a filha Ana (que em vida adulta mudou o nome para Reyna) e a irmã solteira Brianda de Luna.

 

Dona Gracia e o irmão de seu falecido marido, Diogo Mendes, se tornam em Antwerp parceiros no comércio de especiarias. Diogo tinha conexões comerciais com a nobreza de vários países europeus. 

 

Posteriormente, devido as suas boas escolhas comerciais, Dona Gracia se tornou uma mulher de negócios independente e muito bem sucedida, fato (quase) inédito em sua época.

 

A ligação das famílias Mendes e Benveniste se fortaleceram ainda mais quando a irmã de Dona Gracia, Brianda de Luna se casou com Diogo Mendes. O casamento durou apenas 5 anos, pois Diogo veio a falecer.

 

No testamento de Diogo, ele deixou todo o controle do império comercial Mendes-Benveniste para Dona Gracia, tornado-a a mulher de negócios mais poderosa do mundo.

 

 

Fuga e Fortuna 

A imensa fortuna de Dona Gracia serviu para influenciar reis e papas tanto para garantir o sucesso de sua rota de fuga a fim de fugir dos longos braços da Inquisição, quanto para salvar conversos. 

 

Além do comércio de especiarias, ela tinha aprendido a lidar com as atividades bancárias exercidas por seu marido e cunhado, que consistia em transferência de dinheiro entre países e letras de câmbio.
 

Ainda em Antwerp, ela criou um plano que salvaria centenas de conversos portugueses e espanhóis que estavam na mira da Inquisição. Tais conversos eram secretamente colocados dentro de embarcações comerciais da família Mendes-Benveniste que faziam o trajeto Lisboa-Antwerp.

 

Ao chegarem em Antwerp, Dona Gracia e sua equipe davam aos fugitivos instruções e dinheiro para que viajassem de carroça e a pé pelos Alpes Suíssos até a grande cidade portuária de Veneza. Em Veneza, arranjos haviam sido feitos para que navios os transportassem para o Império Otomano, Grécia e Turquia. Naquela época, o Império Otomano recebia judeus em suas terras liberadamente. A rota de fuga foi cuidadosamente planejada. Mas mesmo assim, muitos morreram enquanto percorriam os caminhos montanhosos dos Alpes.

 

A experiência bancária de Dona Gracia permitiu que muitos judeus conversos deixassem Portugal, transferindo o dinheiro deles através de letras de câmbio para que pudessem reconstruir suas vidas em outro lugar. 

 

A casa Mendes-Benveniste agora lidava com Rei Henry II da França, Imperador Charles V e sua irmã Maria, governadora dos Países Baixos, Papas Paulo III e IV, assim como com o Sultão Suleiman, o Magnífico.

 

Essas transações envolviam atividades comerciais, empréstimos e subornos, principalmente os feitos ao Imperador Charles V e acusadores inquisitoriais que perseguiam Dona Gracia e sua família.

 

Pagamentos feitos pela Casa Mendes-Benveniste ao Papa Paulo III e seus associados atrasaram o estabelecimento da Inquisição em Portugal.

 

Além de tudo, Dona Gracia constantemente tinha que fugir das tentativas de nobres que se ofereciam para casar com sua única filha. Ela sabia que se isso acontecesse, o marido de sua filha sendo um cristão, arranjaria meios para lhe confiscar toda a fortuna e levar-lhe a miséria e provavelmente, a morte. 

 

Porém em Antwerp, um nobre católico, Don Francisco d'Aragon, pediu a mão da filha de Dona Gracia, Reyna, em casamento. Não havia mais como recusar propostas e uma medida urgente foi tomada.

 

Dona Gracia, sem aviso prévio, junto com sua filha, a irmã Brianda e sobrinha, deixaram a mansão dos Mendes, embalando apenas suas jóias e tantos pertences pessoais quanto possível, e fugiram para a Itália, pouco depois aparecendo em Veneza. Quarenta caixas cheias de objetos de valor foram deixadas para trás em Antwerp.

 

 

Inquieta Veneza e o Judaísmo de Ferrara

Ao saírem de Antwerp, que na época era parte do "império" espanhol, Dona Gracia e família chegam a Veneza.

 

Veneza oferecia a conversos e seus descendentes segurança comercial. Judeus que nunca haviam se convertido ao Judaísmo e permaneciam religiosos, afastando-se da assimilação, eram confinados em guetos. Dona Gracia e família, fingindo-se cristãos, não foram importunadas a princípio.

 

Em Veneza, Dona Gracia continuou com os negócios bancários, assim como também negociava com tecidos, pimenta e grãos.

 

A duração de seus negócios em Veneza foi breve, pois conflitos com a irmã Brianda sobre a herança deixada por seu marido, Diogo, levaram Dona Gracia a se mudar para a cidade de Ferrara, onde pela primeira vez ela foi capaz de praticar Judaísmo abertamente.

 

Em Ferrara, ela adotou formalmente o antigo sobrenome judaico de sua família , Nasi, que no Judaísmo indica uma ascendência real, e insistiu em ser chamada pelo seu nome hebraico Hanna, cujo equivalente latino é Graça = Gracia. Hanna Gracia Beatrice de Luna Mendes Nasi, uma mulher de muitos nomes e que honrou a cada um deles.

 

Dona Gracia se tornou muito envolvida com a comunidade sefaradita de Ferrara, promovendo a impressão de livros, entre eles a Bíblia de Ferrara e Consolações pelas Tribulações de Israel, de Samuel Usque, ambos em 1553.

 

 

 

O conflito com sua irmã, que agora tinha mudado o nome de Brianda para Reyna de Luna, ainda continuava. Para acabar com isso, Dona Gracia concordou em voltar a Veneza a fim de acertar suas contas perante o Consiglio dei Pregadi, ou seja, o Senado de Veneza. (obs: a filha de Dona Gracia também se chamava Reyna)

 

Em Veneza, os perigos da Inquisição cercaram Dona Gracia, onde ela foi presa e teve sua fortuna confiscada.

 

Coube ao seu futuro genro, Don Joseph Nasi, convencer o Sultão Suleiman, o Magnífico das vantagens comerciais que a presença de Dona Gracia traria ao Império Otomano.

 

Sultão Suleiman se alegrou em saber que finalmente iniciaria uma briga com os competidores comerciais de Veneza e enviou representantes para avisar que caso Dona Gracia, sua família e riqueza não fossem enviadas a ele, uma guerra seria iniciada.

 

Levou dois anos para que a negociação fosse completada e Dona Gracia, sua família e fortuna, liberados para retornarem a Ferrara, para logo após, se mudarem para Constantinopla, sob proteção do Sultão.   

 

 

Depois da Tempestade, o Descanso

Após acertar tudo com sua irmã Reyna de Luna e ser salva da prisão, Dona Gracia, junto com a filha que agora se chamava Reyna Nasi, e sua 'entourage', se mudaram para Constantinopla (Istambul), na cidade de Galata.

 

Finalmente ela tinha alcançado total liberdade religiosa e desta maneira ela se tornou parte ativa da liderança Sefaradita do Império Otomano.

 

Em Constantinopla, Reyna Nasi se casou com seu primo Don Joseph Nasi.

 

 

Sanções para a Inquisição e Salvação para os Judeus

Em 1556, o Papa Pio V condenou um grupo de conversos da cidade de Ancona à fogueira. Em resposta, Dona Gracia organizou o aumento de sanções econômicas (barreiras comerciais, tarifas e restrições sobre transações financeiras) para Ancona e Estados Papais.

 

Ainda em Constantinopla, ela construiu sinagogas, yeshivas e bibliotecas. Uma das sinagogas que construíra foi nomeada La Syniora, (você pode conferir fotos aqui: http://izmirdergisi.com/en/come-to-smyrna/for-belief-tourism/336-the-most-famous-synagogue-of-havra-street-la-sinyora-giveret-han-mefendi), em sua homenagem, na cidade de Izmir, na Grécia.

 

 Sinagoga La Syniora 

 

Essas instituições foram criadas principalmente para ajudar os refugiados da Inquisição a retornarem ao Judaísmo, sua fé ancestral.

 

 

 

Tiberíades, Israel - A Primeira Sionista

Em 1558, o Sultão Suleiman, o Magnífico, concedeu a Dona Gracia a venda de terras para pagamento a longo prazo (long term lease) na cidade de Tiberíades, no Norte de Israel, em troca de um considerável aumento de impostos sobre os bens de nossa benfeitora. Em Tiberíades está localizado o Mar da Galiléia e os kevers (túmulos) de vários tzadikim, entre eles o Rambam, Rabino Akiva e Rabino Meir Baal Haness.

 

O Império Otomano havia conquistado aquela região de Israel alguns anos antes, mas era em grande parte um lugar desolado. Como resultado da transação comercial, Dona Gracia obteve autoridade governamental sobre Tiberíades.

 

Com a ajuda do Sultão, Dona Gracia reconstruiu cidades abandonadas da região e as disponibilizou a refugiados da Inquisição, para que pudessem se estabelecer ali, caso eles quisessem. O objetivo da filantropa era tornar Tiberíades um grande assentamento judaico, com comércio e instituições educacionais.

 

Este empreendimento é frequentemente chamado de uma das primeiras tentativas de um movimento sionista moderno. Dona Gracia (Mendes) Nasi morreu em Istambul no início de 1569.

 

 

 

Esquecimento, Legado e Ressurgimento

Dona Gracia e seus feitos foram esquecidos quase que imediatamente após seu falecimento.

 

Atualmente, mais de 500 anos após sua morte, seus feitos estão sendo redescobertos principalmente graças a mulheres judias do mundo inteiro que se dedicam a comentar e publicar o legado desta grande heroína do povo judeu.

 

 Eu, no museu-hotel dedicado a Dona Gracia em Tiberíades

 

 

Em Junho de 2018 visitei a cidade de Tiberíades e tirei muitas fotos deste museu, você pode conferir algumas delas aqui: 

https://www.facebook.com/vidapraticajudaica/photos/pcb.2077825495765994/2077824775766066/?type=3&theater

 

Líderes israelenses honraram pela primeira vez a memória de Dona Gracia em 2010, mesmo ano que em Nova York foi proclamado o Dona Gracia's Day.

 

Palestras, homenagens, artigos escritos, vídeos, exposições em museus e até mesmo nomes de ruas (como a Rua Dona Gracia em Haifa) começaram a ser dedicadas a Dona Gracia Mendes Nasi.

 

Um crescente número de mulheres de negócios e da política freqüentam palestras sobre Dona Gracia Nasi, pois se identificam com sua ambição, coragem e até mesmo solidão.

 

A Corporação de Moedas e Medalhas do Governo de Israel produziu uma medalha e moedas comemorativas a Dona Gracia. Exemplares podem ser vistos no modesto museu-hotel dedicado a sua homenagem na cidade de Tiberíades.

 

 Moedas comemorativas em honra a Dona Gracia

 

 Eu, segurando uma das portas que pertenceram a mansão de Dona Gracia em Istambul e que agora

faz parte do museu-hotel dedicado a ela em Tiberíades

 

 

 

 

Descendentes

Descendentes de Dona Gracia Nasi, assim como descendentes dos judeus que ela salvou da Inquisição lhe serão sempre gratos pelo exemplo de coragem, determinação e fé. 

 

                        Dona Gracia, pintura a óleo de 1998 feita pela artista plástica Barbara Mendes

 

 

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