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Mantendo Cashrut no Interior do Ceará

Recentemente passei três semanas no Brasil, mais precisamente na região do Cariri, sul do Ceará. O motivo da visita foi passar tempo com meus pais e rever familiares e amigos que moram nas diversas cidades que compõem a região.

 

A primeira pergunta que me fazem quando vou ao Brasil é "Como você vai fazer pra comer?". Todos sabem que devido as restrições de uma dieta estritamente casher, viajar para locais onde não há restaurantes ou uma comunidade judaica que possa oferecer alimentação casher se torna um desafio imenso. 

 

Como digo frequentemente, pode ser difícil, mas não é impossível.

 

Com um pouco de conhecimento haláchico, organização, listas e um mínimo de conhecimento culinário (sim, criança, cozinhar é preciso), hoje em dia é possível viajar para qualquer lugar do planeta e manter cashrut sem problema nenhum.

 

Geralmente quando viajo, trago comigo um arsenal de enlatados, mezonot (bolos, biscoitos etc) e alimentos que só precisam de água quente para ficarem prontos (cuzcuz, arroz parboilizado, purê de batata em pó etc etc etc)...mas dessa vez fiz diferente: decidi que experimentaria usar exclusivamente produtos alimentícios industrializados que estivessem nas listas de produtos casher disponíveis no Brasil, assim como consumiria alimentos naturais, sejam crus (frutas e saladas) ou cozidos (vegetais, grãos etc).

 

O resultado foi bem mais positivo do que o que eu tinha imaginado. 

 

As listas estão online, então para quem tem smartphone, é extremamente fácil consultar quais produtos são casher até mesmo dentro do supermercado, sem necessidade de fazer uma lista prévia. 

 

A variedade de produtos industrializados casher que encontrei no Ceará foi imensa, ao ponto que não senti falta de absolutamente nada. Vegetarianos, veganos e piscitarianos ("vegetarianos" que comem peixe) não tem do que reclamar sobre como manter uma dieta casher no Brasil.

 

 

CARNE

Carne é sempre o grande desafio da cashrut brasileira porque ela "vem de longe e é cara".... mas isso não é só um drama no Brasil, é no mundo todo. Até mesmo em Israel infelizmente encontramos famílias que não tem condições de comprar carne regularmente devido ao alto preço e só a consome em feriados e alguns Shabats.

 

Em países onde há comunidade judaica, mas não há shochet como no Japão, ou onde a shechita (abate ritual) foi proibido como a Suécia, Dinamarca e algumas cidades no norte da Bélgica (em setembro de 2019 haverá uma votação para ampliar esse ban para todo o país), a carne casher também tem que vir de longas distâncias e por um preço nada amigo para seus consumidores.

 

Na Holanda, devido a pressão de organizações ambientais e do governo, há somente um único shochet para todo o país...e isso também causa grande stress para a comunidade.

 

Triste, mas real.  

 

Fonte: https://www.aish.com/jw/s/Banning-Shechita-in-Europe.html

 

 

 

MAS TIRANDO A CARNE, TUDO BEM!

Deixando a carne de lado, encontrei em vários supermercados situados em Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Nova Olinda e Missão Velha produtos diversos...biscoitos, requeijão, creme de queijo, leite, café, chocolates, UMA ENORME VARIEDADE DE SORVETES DA NESTLE E KIBON e até mesmo, para minha surpresa: grão de bico. Grão de bico não é algo tão típico do cardápio brasileiro, por isso fiquei surpresa ao encontrar pacotes a venda em um dos supermercados que entrei. 

 

 

 

QUAIS SITES USEI?

O site que usei com mais frequência foi: www.buskasher.com.br

 

O app que usei com mais frequência foi o da BDK: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.Rollep.bdk&hl=pt_BR

 

E por via das dúvidas, quando queria verificar se havia mais opções casher ou alterações nas listas, consultei os seguintes sites:

 

www.bdk.com.br

 

www.bka.com.br

 

Até uma de minhas primas usou o Buskasher algumas vezes quando queria comprar sorvetes e refrigerante pra mim :)

 

 

 

COZINHA

Minha mãe é do tipo que não joga nada fora, então quando ela pediu para meu pai um fogão novo, ela guardou o antigo e foi este fogão antigo que eu casherizei e usei. Casherizei o forno deste fogão também, assim pude fazer minhas chalot pra Shabat. 

 

Levei duas panelas de casa junto com pratos descartáveis, um garfo, uma faca e uma colher de metal, copos e algumas colheres descartáveis e um megacopo de vidro pra eu beber meu estimado café da manhã. Pedi pra minha mãe comprar alguns containers e uma peneira de plástico, uma esponja e guardanapos de papel. 

 

Minha alimentação foi simples, postei até algumas fotos na página do blog no Facebook e repito: não senti falta de nada. Ainda tive até o que considero luxos como beber leite com Toddy enquanto degustava wafers Prestígio...realmente muito bom. 

 

 

CONCLUSÃO

1. É preciso saber cozinhar para manter cashrut no Brasil. Em países que possuem uma grande comunidade judaica  encontramos facilmente restaurantes casher de todos os tipos, comidas prontas congeladas (ou não) e lanches prontos disponíveis em supermercados, padarias ou mercados judaicos. No Brasil, a coisa é mais complicada, mesmo em SP e RJ.

No Brasil, Casher é basicamente sinônimo de comida caseira. 

 

2. Devido a vasta variedade de sites e páginas de culinária no Facebook e Youtube com receitas veganas e vegetarianas, concluo que no Brasil só não mantém cashrut quem não quer.

 

 

 

FAMÍLIA

Lidar com a família que não come casher é a parte mais dura, porém necessária. 

 

Aprendemos a dizer NÃO e aprendemos a sermos criativos nas respostas. 

 

Cada família tem sua própria dinâmica, então eu só posso falar nas táticas que funcionam com a MINHA. 

 

 

1. Seja simples

Jamais explico a meus familiares as leis de cashrut. Jamais. Aos meus pais, disse que desde que comecei a seguir o Judaísmo, só posso comer alimentos que eu mesmo preparo que sejam preparados segundo as regras dietéticas judaicas. Só isso. Nada mais. A única coisa que eu tive que explicar em detalhes foi o procedimento de shechita (abate animal) de quadrúpedes e de aves, assim minha mãe se sentiu consolada em saber que o problema não era a comida dela, mas a maneira como o animal foi abatido. Se eles perguntam mais detalhes, formulo respostas simples, nada que venha lhes ofender, as vezes até digo "porque é assim que tem que ser", "porque o rabino disse que é assim" e basta. 

 

Quando insistem bastante, apenas digo: "Não se preocupe, eu faço minha própria comida, vai descansar um pouco, beber um café...não se preocupe, que eu sei cozinhar."

 

Só isso e nada mais. 

 

Repito: cada família tem sua própria dinâmica. Essa tática funciona com a minha porque RESPEITO é uma lei atuante na casa de meus pais. Eu respeito meus familiares e ELES ME RESPEITAM TAMBÉM, então ambas as partes sabem qual o limite de comentários e perguntas que devem ser feitos e quando sentem que estão incomodando a outra parte, o respeito pede para que os questionamentos cessem, e assim é feito. Quando há respeito, há limites para ambos os lados.

 

Para a parentela (tias, tios, primos, primas etc) eu jamais explico nada, apenas digo que "já almocei", "acabei de comer", "não, obrigada, estou cheia" ou "Você tem frutas? Eu tô me sentindo um pouco cheia, mas se você tiver uma fruta, eu como". 

 

Simples, não? 

 

Obviamente minha mãe disse para as irmãs dela e parentes mais próximos que eu não posso comer nada que me ofereçam, e todos ficam de boa, ninguém faz drama ou sequer esboça qualquer reação negativa. Eles dizem que sou a visita mais fácil que já tiveram porque "ela vem e traz a própria comida, visita melhor não há".

 

Quando há respeito, é possível. 

 

Em famílias onde não há respeito para opinião alheia, quando familiares ultrapassam os limites, a melhor resposta é simplesmente se retirar. 

 

 

 

TRAZER A PRÓPRIA COMIDA

Sim... trazer um ou mais pacotes de bolacha/biscoito dentro da bolsa e uma garrafa de refrigerante gelado para cada lar que visitamos economiza explicações e ninguém fica ofendido se recusarmos o bolo que prepararam (na minha família, bolo é primordial) para o lanche da tarde. Apenas digo "Trouxe o lanche" e todos ficam felizes. Não explico nada, apenas trago. As crianças são as que mais gostam dos agrados. 

 

 

 

PARANÓIA

O medo de ofender a quem nos oferece comida toma ares de paranóia para quem mantém casher. Isso tem que ser analizado com calma. Recusar comida ou bebida é um ato comum que qualquer pessoa do mundo faz, não há necessidade nenhuma de ficarmos apreensivos e com medo de dizermos não. 

 

Na casa de uma tia minha, por exemplo, ela trouxe 2 containers com bolachinhas diferentes... uma tinha cheiro de queijo e a outra era simplesmente salgada em formato circular. Eu disse que tinha almoçado a pouco tempo e que não queria e meus primos que estavam na mesma sala, juntamente com meus pais, nem disseram nada, apenas não pegaram nenhuma bolacha porque não queriam. Eu fui a única a querer dar explicações e ser extra-educada...veja bem... 

 

O fato de recusarmos alimentos ou bebidas que nos são dados não significa que estamos procurando o início de uma inimizade, significa apenas que não queremos e nosso desejo deve ser respeitado. 

 

 

 

RESPEITO É O SEGREDO

Comer é um ato que une as pessoas... comer na companhia de amigos e até mesmo desconhecidos faz com que nos sintamos mais próximos uns dos outros. Quando dividimos um pedaço de alimento ou um gole da mesma bebida, criamos uma conexão maior com o próximo. 

 

Para manter o mesmo nível de socialização, é necessário que o judeu ou judia que mantém casher se mude para uma comunidade judaica onde todos (ou boa parte da população) mantenham o mesmo nível de cashrut. Assim continuaremos socializando sem problema nenhum. 

 

Agora quando uma pessoa que mantém cashrut não se muda para uma comunidade judaica, o senso de isolamento é inevitável.

 

Tal pessoa não poderá comer nada que lhe sirvam (com raras exceções) e poderá até mesmo magoar pessoas que passaram tempo preparando-lhe algum prato especial. 

 

Judeus que fazem teshuvá (judeus que já NASCERAM judeus, foram criados em lares não religiosos e decidiram se tornar religiosos quando alcançaram a vida adulta, de livre e espontânea vontade) sofrem com essa falta de socialização que a comida traz, pois não podem mais comer os alimentos preparados por seus familiares que não mantém uma cozinha casher.

 

Uma pessoa que se converte ao Judaísmo também passa pela mesma situação. E caso esta pessoa não viva em uma comunidade judaica, ela se sentirá duplamente isolada.

 

Nestas três semanas que passei no Ceará, foi necessário muito jogo de cintura para passar por todas as situações inusitadas que a comida pode gerar. 

 

No entanto, há maneiras de ainda socializarmos com nossos amigos e parentes que não mantém casher. Uma delas é chama-los para tomar um sorvete (há muitas marcas casher) durante um passeio ou em casa mesmo. A alegria de meus pais quando nós três nos sentamos no banco da praça para tomarmos sorvete juntos foi algo impressionante. Eu gosto muito dessa experiência de comermos algo juntos, mas pra eles, o fato de que eu estou sendo "normal" ao lado deles ao tomar um sorvete, comer a mesma bolacha ou doce ou até mesmo beber um copo de refrigerante chega a ser engraçado. 

 

  • Outra dica é conversar com seu Rabino sobre as leniências que podem ser feitas a fim de socializar...por exemplo, o sabor não casher de algo eh absorvido ou transferido a recipientes e alimentos somente através do calor. Se o recipiente estiver frio, ele não pode transferir "sabor não casher" para o alimento que está sobre ele. Isso quer dizer: se algum parente seu te oferecer refrigerante (casher) dentro de um copo de vidro que lhes pertence, não há problema nenhum porque o copo e a bebida estão frias. É certo que há judeus que não se sentem bem neste tipo de situação e que não beberiam o refrigerante em copo que também serviu treif (bebida não casher), mas a verdade é que nenhuma lei de cashrut está sendo quebrada e essa leniência pode ajudar na socialização de muitas pessoas que se sentiriam mal em recusar uma bebida fria de amigos ou familiares. 

 

Para os mais estritos, há sempre a opção de levar copos descartáveis onde quer que vamos. É como a propaganda de cartão de crédito, não saia de casa sem ele. 

 

Há outras leniências que não quebram a halacha, como a de que é possível até mesmo dividir o mesmo fogão com alguém que não mantém casher, caso as devidas providências forem tomadas... se informe com seu Rabino a respeito. Há um grande número de jovens judeus que dividem apartamento com amigos não judeus e que se beneficiariam muito desta leniência. Alguns chegam a comer treif (não casher) apenas porque não sabem que lhes é possível manter cashrut sem ter dois fogões em casa... leniências NÃO são as melhores opções, mas elas ajudam àqueles que estão a beira de um "colapso" a se manterem na linha, sem quebrar a halacha.

 

Se você fala inglês, esta é uma ótima uma explicação para quem mora com amigos ou familiares que não mantém casher e que precisam dividir o fogão com eles: http://rabbikaganoff.com/is-my-stove-kosher/

 

 

 

VOCÊ NÃO É MASHGIACH

Agora fugindo um pouco da minha experiência pessoal e partindo pra uma crítica, comentaram comigo que há muita gente no Brasil QUE NUNCA FEZ NENHUM CURSO EM CASHRUT se achando capaz de julgar o que é e o que não é casher somente pelo rótulo do produto... pelamor, né gente... isso não passa de arrogância banhada em ignorância. Erros na impressão de rótulos, erros na impressão de embalagens e etiquetas (problema frequente até mesmo nos EUA), fabricação de produtos casher e não casher no MESMO maquinário, súbita mudança ou adição de ingredientes problemáticos na receita do produto, adição de certa porcentagem de leite ou proteína de leite (whey) que a lei não exige descrição no rótulo, adição de proteína ou gordura animal na confecção de um produto... e por aí vai...

 

Enfim... crítica feita. Faça a coisa certa e confira as listas antes de comprar.

 

 

 

CONCLUSÃO

É possível manter cashrut no Brasil, até mesmo no interior do Nordeste. Porém, para não morrer de tédio, a pessoa precisa aprender a cozinhar e lutar para sair da "escravidão" do arroz com feijão.

 

Para nós, brasileiros, arroz e feijão é nossa maior bênção e ao mesmo tempo, também nossa maior "maldição" culinária.

 

É uma bênção pela facilidade e combinação perfeita e benéfica dos nutrientes de ambos os alimentos. 

 

E é uma "maldição" porque o 'arroz e feijão' causa uma rotina alimentar que MATA a criatividade, ou seja, mata a vontade de se aventurar em outros pratos ou em conhecer a culinária internacional. 

 

Para muitos, há até mesmo o medo de que se não comerem arroz e feijão religiosamente duas vezes ao dia, ficarão fisicamente fracos... 

 

Cozinha casher é uma coisa, chatice é outra. É totalmente possível desenvolver pratos criativos e nutritivos que não precisem nem do arroz e nem do feijão. Também é possível se inspirar na cozinha de outros países para trazer um sabor incrível para nossa mesa. A culinária indiana, chineza, tailandesa, coreana, italiana, mediterrânea e francesa tem muito a nos ensinar e inspirar. 

 

Há uma chef judia chamada Susie Fishbein que criou a famosa série de livros culinários Kosher by Design. O segredo de tanto sucesso? Susie SAIU da rotina de pratos tipicamente judaicos e trouxe para seus livros receitas adaptadas da culinária internacional. Essa série de livros abriu a mente de muitos, inclusive a minha, e enriqueceu nosso paladar com sabores que antes eram vistos como "impossíveis".

 

Sair da rotina é uma necessidade para manter a vida interessante. A mesma premissa vale para nossas cozinhas. 

 

 

Kol tov e um bon appétit a todos,

 

 

 

Esther

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