Há Perspectiva Judaica sobre Aborto Espontâneo?


No Judaísmo, quando uma gravidez se conclui com êxito e surge um lindo bebê risonho, todos festejam. Mas quando a gravidez é interrompida involuntariamente, a maioria finge que nada aconteceu.


Para a mulher que passou por um aborto espontâneo, a falta de voz dentro da religião judaica, de saber o que fazer, de uma direção e muitas vezes a falta de compaixão aumenta o senso de culpa, incompetência, raiva e frustração da mulher que estava destinada a ser mãe, mas em vez de dar a luz a um lindo bebê, ela ejeta de seu corpo, contra a própria vontade, sangue e os restos mortais de um ser que estava destinado a ser seu filho(a).


Primeiro, vou dar uma visão "meio técnica" do assunto, já que isso aqui é um blog e pode ser que pessoas não familiarizadas com este tema acabem lendo esta postagem. Depois, vou falar do que eu - como mulher - sei e o que sinto a respeito. Espero que este post possa trazer um pouco de conforto e VOZ a todas as judias que se sentem completamente sozinhas e perdidas frente a este triste e doloroso capítulo do nosso livro da vida.


Um aborto espontâneo é a perda de um feto devido a causas naturais, geralmente antes da vigésima semana de gravidez. Há um grande número de razões dadas por médicos para explicar este triste fenômeno. Abnormalidades encontradas nos órgãos reprodutores, abnormalidade genética do feto, infecções, problemas de saúde, idade da mulher etc etc etc etc. Porém, muitos médicos confessam que a maioria dos abortos espontâneos acontecem por causas desconhecidas.




Choro e solidão.

No Judaísmo, a quem uma mulher deve recorrer quando o médico confirma que ela teve um aborto espontâneo?


Não há halacha. Não há "palavras mágicas". Não há rituais. Não há rezas. Não há nada. Muitas vezes, não há nem compaixão, apenas silêncio.


O Judaísmo não possui rituais dirigidos para a morte de fetos. Não há kadish. Não há acendimento de velas. Não há nada, ritualmente falando. Para bebês que se vão antes de completarem 30 dias de vida, também não há rituais para os pais. O corpo do bebê é entregue a Chevra Kadisha (associação de voluntários que lidam com os cuidados necessários do corpo para que seja enterrado com dignidade) e não há nada além disso...alguns pais que moram em comunidades mais modernas ainda fazem algo de sua própria vontade como plantar uma (ou várias) árvore(s) em honra da memória de seu bebê, mas... isso parte da iniciativa deles...não há halachot para os pais...não há um enterro formal...não há semana de shiva...antigamente os túmulos não eram nem marcados e os pais e familiares não participavam do discreto enterro...muitas vezes os pais nem eram informados onde exatamente seus bebês que faleceram antes de 30 dias foram enterrados...práticas que eram aceitas no passado, mas... e hoje em dia?


Em uma vida cercada de rituais, do momento que abrimos os olhos até quando adormecemos a noite, se ver em uma situação tão dolorosa e ficar sem receber um rumo espiritual ou dicas de como reagir entristece e choca. Embora saibamos que aborto espontâneo é uma possibilidade, não pensamos nisso até o dia que acontece. E quando acontece, nenhuma mulher sabe como reagir. Até mesmo no mundo não judaico este assunto não é discutido como deveria.


Os Rabinos que escreveram o Talmud e nossos códigos de leis não adicionaram nada a ser feito sobre aborto espontâneo porque no passado o índice de mortalidade infantil e gravidez interrompidas espontaneamente era tão alto que mulheres judias estavam mais preparadas para essa perda do que estamos hoje.


No passado, se os Rabinos acrescentassem rituais de luto para cada bebê que fosse perdido, a maioria das judias viveria em quase que constante estado de luto. Devido as durezas da vida no passado, mulheres em geral, judias ou não, simplesmente não tinham como se apegar muito ou se entregar para a dor causada pela perda de uma gravidez.



Japão

No Japão havia um ditado (fui ao Japão em 2016 e uma guia turística me contou) de que uma criança pertencia aos deuses até que ela completasse 7 anos de idade. Depois disso, ela passaria a pertecer aos pais. Tal ditado foi criado como uma forma de consolar a mulher que tinha sua gravidez interrompida involuntariamente e aos pais que encaravam o monstro da mortalidade infantil.


Se um feto morresse, os japoneses faziam (e ainda fazem, na verdade) se voltam para o Jizo, que é um deus suposto a proteger a alma de fetos e de crianças. As estátuas dos Jizos são vestidas com roupas (um tipo de manto) confortável, e em troca o Jizo cobriria a alma das crianças, evitando que sentissem frio, e as guiaria no mundo do além. A estátua do Jizo nunca é destruída, ela fica lá, como um memorial dedicado ao bebê invisível, que os pais nunca chegaram a conhecer.


Por quê estou falando de Japão e Jizo em um blog de Judaísmo? Porque devido ao silêncio de nossos Rabinos e Rebbetzins sobre aborto espontâneo, algumas judias norte americanas estão entrando na onda do Jizo, comprando as pequenas estátuas, as vestindo com um cachecol ou qualquer peça de roupa quente e deixando em seus jardins. Não só judias, mas muitas não judias também estão aderindo a esta prática. Para judias que aderiram a isso, elas alegam que não precisam saber o conteúdo histórico-religioso do Jizo e não ligam para o fato de que ele seja considerado um deus, o que elas precisam é apenas fazer algo, fazer um ritual para evitar que a memória de seus fetos seja esquecida. Pois para muitas mulheres, o mero pensamento de esquecer que este feto existiu traz um certo sentimento de culpa, principalmente quando engravidam novamente.




Voltando ao Judaísmo

Talvez no passado a dureza da vida tornasse aceitável o silêncio que envolve esse tipo de perda, mas hoje em dia, quando nos vemos cercadas de avanços médicos e tecnológicos, tal silêncio só piora toda a situação. Judias precisam encontrar meios de se comunicar mais, trocar mais informações a fim de encontrar respostas que tragam um MÍNIMO de conforto para a inquietação de suas mentes e espíritos.




Frases

"Liga não, você vai engravidar de novo..."

"Da próxima dará certo"

"Pra quê o drama? Você é jovem, vai engravidar rápido"

"Deixa disso, era só um feto, daqui a pouco você faz outro"

"Ele tá no céu, cercado de anjinhos"


Quem tem aborto espontâneo geralmente ouve tais frases cliches...e nenhuma delas traz consolo. Nenhuma. Algumas até machucam, na verdade. A melhor coisa que uma pessoa deve fazer ao ser informada que uma amiga perdeu o bebê é apenas se mostrar presente e ouvir. Reconheça a dor daquela mulher e deixe ela chorar, falar, reclamar, se expressar da maneira que ela quiser. E se ela não quiser falar, apenas se mostre presente ao lado dela, mesmo que seja em silêncio. Não a corrija e não tente contar histórias miraculosas para quem está de luto. Só piora a situação.




Apoio na Ortodoxia

Judias ortodoxas recebem mais apoio e direção neste assunto do que judias que não fazem parte de uma comunidade religiosa.


Mesmo antes de se casar, judias religiosas recebem aulas de professoras de Taharat Hamishpacha (pureza familiar), onde todos os assuntos referentes a um casamento saudável são citados. A professora de TH se torna uma confidente, um apoio constante e ao mesmo tempo invisível mesmo do casamento. A professora de TH também serve como uma ponte entre a judia casada e as soluções que ela almeja. Uma professora de TH, além de responder dúvidas, pode conversar amigavelmente, informar ou dar referências sobre diferentes especialistas da área médica, psicológica ou haláchica que podem auxiliá-la.


Judias religiosas que passam pela traumática experiência de um aborto espontâneo e queiram conversar com uma mulher que não é de sua família (as vezes não queremos conversar com familiares ou amigos, sorry, é assim que é) podem encontrar na professora de TH uma ajudadora que opera em um campo neutro e mantém a máxima discrição.


Além disso, mulheres religiosas apoiam umas as outras, como uma grande irmandade e caso uma mulher que passou por um aborto espontâneo não tenha força física para voltar a "rotina do lar", mulheres da comunidade podem ajuda-la no que ela precisar.


De forma alguma quero tirar o mérito da família e amigas, mas ao mesmo tempo lembro a vocês que nem todas as mulheres possuem famílias estáveis ou se sintam fortes o suficiente para falar sobre isso com amigas. As vezes, dependendo do caso, uma mulher precisa de uma pessoa neutra, não envolvida em sua rotina, para auxiliar.


Receber apoio moral, espiritual e com ações de Rabinos e Rebbetzins que são sensíveis a esta situação também é comum, até mesmo porque alguns deles já passaram pela mesma situação.


Sim, tudo é bem complexo quando lidamos com a criação e perda de uma vida.




Bebês que nascem e se vão

Esta é uma dor emocional que só quem passou sabe o que é. É totalmente vão e inútil dizer "eu entendo".


Como entender o que se passa no coração de uma mulher perdeu seu bebê no estágio final da gravidez, durante ou logo após o parto? É impossível. Tudo o que podemos fazer é oferecer ouvidos para ouvi-la e apoio no que ela precisar. O sentimento de perda é constante, mesmo que os anos passem e ela tenha filhos e netos. O lugar daquela criança que não viveu jamais será preenchido. É mais do que simplesmente perder um bebê... é um sentimento de perca de sonhos e esperanças de uma forma geral.


Hoje em dia judias que falam inglês e hebraico encontram grupos de apoio para este tipo de experiência, mas não sei se há algo em português ou espanhol.


Um destes grupos de apoio é o Nechama Comfort (http://nechamacomfort.com/), que foi fundado por uma judia chamada Reva Judas, que perdeu um bebê 12 horas após o parto devido a complicações cardíacas da criança e após, sofreu 6 abortos espontâneos antes de finalmente se tornar mãe de uma criança saudável. Com tanta bagagem, Reva fez cursos e se tornou chapelã de um hospital, e ao notar que com o passar dos anos este assunto ainda era tratado como tabu e trazia um certo stigma na comunidade judaica, ela e seu marido criaram esta rede de apoio.


Uma outra organização criada por judias ortodoxas chamada Knafayim conseguiu mudar a opinião haláchica de vários rabinos sobre alguns aspectos deste assunto. Knafayim, junto com a ajuda de profissionais de saúde, explicam a rabinos e comunidade religiosa em geral (em privado ou em palestras) sobre os vários estágios de luto que uma mulher pode sofrer diante de uma perda tão grande, assim como elucida dúvidas sobre possíveis danos à saúde mental da mulher, à saúde de uma forma geral e demais complicações que uma perda tão grande pode causar.


Há várias organizações, judaicas ou não, que lidam com este tipo de perda ao redor do mundo. Não diminuem a dor da perda, mas ajudam a lidar com ela.




Insights - carta de chizuk escrita por R. Moshe Wilson a uma senhora que sofria de aborto espontâneo recorrente


Aborto espontâneo recorrente é uma condição onde mulheres passam por este trauma várias vezes em sequência. Há mulheres que sofrem 6, 7, 8 abortos espontâneos seguidos antes de conseguirem dar a luz a um bebê. Há mulheres que jamais chegam aos estágios finais de uma gravidez, sofrendo apenas a triste condição de aborto recorrente até a menopausa.


A história a seguir me foi contada durante o curso que fiz para ser professora de taharat hamishpacha.


Uma moça judia ortodoxa de NY teve vários abortos espontâneos seguidos e com o passar dos anos ela entrou em completo estado de depressão. Nada e ninguém conseguia tirá-la de sua tristeza.


Temendo o pior, cônjuge, família e amigos buscaram ajuda das mais diversas formas, mas nada conseguia consolar esta jovem.


Um dia, a jovem recebeu uma carta de um Rabino que se solidarizou com a triste história e fez o seu melhor para dar apoio espiritual e emocional a jovem.


Eu não anotei 100% das palavras desta carta enquanto minha professora a lia, mas anotei o suficiente para lhes passar esta mensagem:


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"Todas as manhãs dizemos a bracha (bênção) Elohai Neshama, que se refere a Hashem como o Criador de todas as almas.


Na conclusão da reza Pesukei Dezimra, chamamos Hashem de Bore Nefashot (Aquele que FAZ as almas).


Nossos sábios nos ensinam que a Redenção Final não chegará até que todas as almas tenham descendido a este mundo e completado a missão que lhes foi dada. Elas virão do Santuário de todas as almas e aqui na Terra completarão sua missão.


Algumas destas almas são tão puras que elas somente precisam ficar neste mundo por um breve momento.


No momento que esta alma entra no corpo de uma mulher, na forma de uma nova vida e depois a deixa depois de um breve período, uma parte da kedusha (santidade) desta alma que retornou a Hashem fica com a mulher.


Esta mulher é como um soldado e não um trabalhador que aguarda recompensa. Ela luta por amor e por devoção, e não porque quer ser recompensada. Esta mulher tem o mérito de aproximar a vinda do Mashiach, aproximar a Era Messiânica, por ter trazido uma alma pura a fim de completar sua missão neste mundo.


Uma luz divina, um anjo divino, a Torá divina estava nesta mulher.


Tudo o que ela passou foi por Hashem e Seu Povo.


Quando uma mulher engravida, nunca é em vão, mesmo que esta pequena alma retorne a Hashem momentos depois de sua concepção."


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Esther



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