Suicídio na Comunidade Judaica

 

Ninguém podia imaginar o que estava para acontecer. Pessoalmente, eu perdi duas pessoas muito queridas da comunidade judaica onde moro que foram vítimas de suicídio. Uso a palavra vítima porque ambas não fariam esta escolha, caso estivessem em total controle de sua saúde mental. Falarei mais sobre isso no final do post, sob o subtítulo de kevura.

 

Ortodoxos, haredim, liberais, seculares, ateus,  israelenses, americanos, brasileiros, canadenses, jovens, idosos, solteiros, ricos, pobres, casados e com filhos...em todos os grupos judaicos podemos encontrar indivíduos que desistiram de viver. A depressão e demais fatores que podem levar ao suicídio não fazem escolha seletiva de onde irão atacar. Os fatores que podem levar um(a) judeu(ia) ao suicídio podem aparecer em todos os lugares.

 

Rabino Yehuda Meshi-Zahav, fundador do ZAKA (grupo de voluntários que prestam socorro médico de emergência) em Israel deu uma entrevista recentemente no jornal Arutz Sheva, que posteriormente foi destaque no site Yeshiva World, onde ele fala como o suicídio também atinge comunidades religiosas. 

 

 

ISRAEL

Segundo a entrevista, aproximadamente 500 isralenses cometem suicídio todos os anos. No mesmo período, há aprox. 6000 hospitalizações causadas por tentativa de suicídio. 

 

 

COMUNIDADES RELIGIOSAS E NÃO RELIGIOSAS

Comunidades judaicas religiosas oferecem mais apoio a indivíduos que pensam em suicídio do que comunidades judaicas não religiosas.

 

Se alguém que é frequente em uma sinagoga começa a faltar nos serviços religiosos, alguém irá perceber e perguntar sobre o paradeiro da pessoa, irá contactar a pessoa para saber se está tudo bem, irá pedir ao Rabino para verificar o estado de saúde da pessoa etc. O convívio social feito na sinagoga oferece uma pista aos amigos da pessoa que pensa em suicídio, que as vezes notal alterações no comportamento da pessoa que se encontra em crise e juntos, procuram ajuda.

 

Judeus religiosos são observantes no bem estar uns dos outros e quando algum membro de nossa comunidade diz a um amigo, ao Rabino ou a um parente seus pensamentos obscuros, imediatamente procura-se ajuda profissional. 

 

Um(a) judeu(ia) que não é frequente em serviços religiosos e vive de forma isolada pode não usufruir deste mesmo nível de contato social, e desta forma, seus problemas ficariam ocultos a comunidade, assim como ele(a) não receberia ajuda ou o apoio que precisa.

 

 

EUA

De acordo com a organização Amudim, que auxilia a famíla de judeus e judias religiosos que possuem familiares em situações de risco (abuso familiar, álcool, drogas etc), em 2017 a organização foi chamada para prestar seus serviços em 51 casos de suicídio e 177 overdoses na comunidade judaica americana (https://hamodia.com/frominyan/day-life-amudim-director-zvi-gluck/).

 

 

KEVURA?

O suicídio é algo que vai contra a lei judaica.

 

Somente pessoas que cometeram suicídio em plena ciência do que estavam fazendo - lada'at - são consideradas suicidas propositais pela lei judaica. A família de tal pessoa sofre em dobro, pois além de ter perdido seu ente querido de forma tão brusca, ainda passa pelo trauma de ver tal ente querido enterrado em uma área separada do cemitério judaico ou fora do cemitério judaico. 

 

Porém, isso raramente acontece. A lei judaica estabeleceu exigências rigorosas e são raros os casos em que alguém é considerado um suicida proposital (por exemplo: alguém que comete o ato 100% ciente do que está fazendo, com raiva e após um anúncio público, entre outros exemplos).   

 

Devido aos avanços de pesquisas médicas sobre doenças mentais e o aumento das discussões sobre as causas do suicídio, Rabinos do mundo todo (de haredim a liberais)  reconhecem que a maioria das pessoas que cometem suicídio podem não ter tido culpa de sua escolha, já que podem ter agido de acordo com alterações psicológicas.

 

Também há a possibilidade de que estas pessoas que agiram em um momento de depressão ou alteração psicológica podem ter feito teshuva (arrependimento completo e sincero) em seus últimos momento de vida, o que o livraria da condição de suicida.

 

Sendo assim, todos os Rabinos discutem sobre este assunto e tomam suas decisões de acordo com as circunstâncias em que a pessoa se encontrava, assim como também leva em consideração o parecer de médicos e testemunho de conhecidos. 

 

Todavia, também devemos estar cientes de que estas medidas são tomadas a fim de poupar a família de mais sofrimento. Após a morte, cada alma se apresenta a Deus e cabe a Ele julgar as ações de cada alma.

 

Uma das pessoas que conheci que tomou a própria vida estava secretamente em depressão profunda a vários anos, tomava remédios e escondia de todos o seu mal. Apenas poucos familiares estavam cientes da gravidade do problema. Eu mesma nunca tive idea de que esta pessoa sofria tanto, já que estava sempre sorrindo e era deveras amigável com todos. Porém, de acordo com familiares, a fórmula de alguns dos medicamentos que esta pessoa usava foram alteradas, o que lhe causou um certo desconforto emocional,  e a pessoa decidiu secretamente parar de tomar alguns dos medicamentos. Amigos me disseram que a pessoa parecia alterada, aérea, triste e que não respondia ligações, e-mails ou visitas. Em pouco mais de um mês desta mudança de medicamento e auto-medicação (ela parou de tomar a pílula que lhe deixava desconfortável), a pessoa foi encontrada sem vida em sua residência. Todos os Rabinos envolvidos concordaram de que os rituais fúnebres e sepultamento deveriam seguir normalmente, conforme o que é feito com todos os judeus. Esta pessoa não tinha total responsabilidade pelo ato e não deve-se punir a família com sofrimento desnecessário, principalmente devido aos traumas e stigma gerado na família, assim como o risco de suicídio de segunda geração. 

 

 

SUICÍDIO DE SEGUNDA GERAÇÃO (OU SEGUNDO GRAU)

Eu não sei se o nome exato no Brasil seria de "segundo grau" ou de "segunda geração". Em inglês, é second generation. Este seria o caso de que algumas vezes, o familiar de uma pessoa que cometeu suicídio também se suicida.

 

As razões deste fenômeno ainda não são claras a psicólogos. As razões sugeridas por profissionais da saúde são diversas, como por exemplo, alguns familiares se sentem culpados por não terem ajudado ou percebido a crise do parente que se suicidou, outros familiares se sentem em dívida emocional, como se fosse uma injustiça que permanecessem vivos enquanto o parente faleceu... em alguns casos acontecidos em Israel, houve pessoas que tiraram a própria vida no kever (túmulo) do parente que se suicidou. 

 

Palavras de Rabino Yehuda Meshi-Zahav, fundador do ZAKA-Israel: “Uma vez eu estava dirigindo e vi um carro sinalizando atrás de mim para parar. Percebi que o motorista queria falar comigo e parei na beira da estrada. Ele me disse: 'Estou procurando por você há muito tempo. Quero consultá-lo sobre algo importante e pessoal. '” Meshi-Zahav acompanhou o homem até sua casa em um yishuv próximo, onde o homem morava. “Ele me mostrou um quarto e outro quarto e depois outro quarto e disse: 'Este é o quarto do meu filho - um garoto de 16 anos que se suicidou. Ele se envolveu em um culto e, em um certo estágio, disseram que seu tempo acabou e ele pulou do Azrieli [complexo de arranha-céus em Tel Aviv]. Toda a minha vida é sombria e é apenas uma questão de tempo até eu seguir os passos dele. '” “Utilizei toda a minha experiência, me conectei a ele. Ficamos amigos até hoje e agora a visão dele mudou completamente. Este era um pai que sentiu uma pontada de culpa por não perceber que o culto controlava seu filho - tanto que ele decidiu que também queria se suicidar. Não estou falando de um ou dois incidentes. Estamos familiarizados com incidentes suficientes para que sejam realizadas pesquisas sobre esse fenômeno. "

 

 

 

AJUDA

Diferentes organizações de prevenção ao suicídio podem ser encontradas em cada país. Pessoas que pensam em formas de tirar a própria vida devem contactar tais organizações o mais rápido possível. Amigos e familiares, líderes espirituais e até mesmo colegas de trabalho podem proporcionar a esta pessoa a coragem e o apoio que ela necessita. 

 

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida tem ajudado a muitos: https://www.cvv.org.br/

 

 

 

 

Que Hashem conceda alegria de viver a todos,

 

 

 

 

Esther

 

 

fontes usadas para este post:

 

https://www.theyeshivaworld.com/news/headlines-breaking-stories/1805186/painful-topic-suicide-in-the-chareidi-sector-zaka-director-shares-his-thoughts.html

 

https://www.myjewishlearning.com/article/suicide-in-jewish-tradition-and-literature/

 

 

 

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