A Review Completa de Nada Ortodoxa


Review da série Nada Ortodoxa (Unorthodox).


Com o uso de belas imagens, fotografia impecável e um bom figurino, Nada Ortodoxa (Unorthodox) conta em 4 episódios a história da jovem Esty, que aos 19 anos, deixa a comunidade hassídica onde cresceu, em Williamsburg, NY, fugindo para Berlim, onde espera encontrar um futuro melhor.


A série ganhou a atenção do mundo devido a dois fatores: o emocional, contando a história universal de libertação de um destino infeliz e a curiosidade, pois muitos alimentam curiosidade quanto a vida hassídica.


Feita em yidish e inglês, Nada Ortodoxa se divide entre momentos da vida presente da personagem Esty, recheados de flashbacks de seu passado, que explicam como ela tomou a decisão crucial de deixar sua comunidade. (detalhe: a maioria dos atores tiveram que aprender seu texto sem yidish sem falar o idioma, tiveram que memorizar a fala e aprender o sotaque, por isso o yidish deles soa ruim para ouvidos de pessoas fluentes no idioma)


O passado de Esty é baseado no livro escrito por Debora Feldman, Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots (Nada Ortodoxa: A Escadalosa Rejeição de Minhas Raízes Hassídicas). E o momento presente da vida de Esty, a partir do momento que ela chega a Berlim, é puramente fictício. Os amigos, a escola de música, o reencontro com a mãe… todo o drama de Berlim é 100% fictício, criado para fins de entreter o expectador.



Shira Haas e Debora Feldman durante filmagens de Nada Ortodoxa


A atriz israelense Shira Haaz mostra uma belíssima interpretação da personagem Esty. Shira possui expressões faciais marcantes, que passam sentimentos genuínos. A atriz também participou da série Shtissel, onde era Ruchami, uma adolescente muito mais madura do que a maioria dos personagens adultos. Você pode ler minha resenha sobre Shtissel aqui: https://www.vidapraticajudaica.com/single-post/2018/12/29/Review---Vamos-Falar-da-S%C3%A9rie-Shtisel

Com o sucesso imediato da série, é certo que haverá uma segunda temporada. Pois quem não se emocionou com o final de Nada Ortodoxa?



Oooooooooooooooooooooooooooook, agora vamos ao que interessa!


Depois de assisti aos 4 episódios, a maioria dos judeus(ias) ortodoxos(as) que convivem com hassidim sabem acertou e errou em muito pontos ao descrever a vida hassídica…mas ao mesmo tempo, tanto judeus que não tem muito contato com hassidim quanto o público não judaico ficou com a cabeça cheia de dúvidas sobre a comunidade de Esty.


Eu sou ortodoxa, não sou hassídica, mas tenho um contato saudável com mulheres de vários grupos hassídicos, e assim sendo, fui capaz de identificar vários pontos onde a série acertou e errou, os quais dividirei com vocês.


Eu sei, eu sei, eu sei… você quer que eu explique logo de cara a cena do quarto, certo? Como brasileira, eu sei exatamente que essa cena traumatizou, horrorizou e chocou os brasileiros, mas calma, colega, calma. Explicarei sim, mas no momento certo. Vamos começar pelo começo.




COMUNIDADES HASSÍDICAS

Há aproximadamente entre 14 a 17 milhões de judeus no mundo.


Destes 14 milhões (sempre sigo a opinião mais modesta), entre 400.000 a 500.000 são hassídicos (https://www.myjewishlearning.com/article/hasidic-movement-a-history/).


Os 500.000 judeus hassídicos que existem hoje em dia se dividem em aproximadamente 50 grupos hassídicos. Cada grupo hassídico tem seu próprio modo de vida. Embora sem revelar diretamente, supomos que Esty pertence ao grupo hassidico Satmar.


Há grupos hassídicos muito estritos, há grupos menos estritos, há os super tradicionais (que rejeitam aspectos da vida moderna), há os que flertam com aspectos da vida moderna…enfim…cada grupo hassídico é um universo em si.


Os maiores grupos hassídicos hoje em dia são:


- Lubavitch, com aprox. 95.000 seguidores (Marcin Wodziński, Historical Atlas of Hasidism, Princeton University Press, 2018. pp. 192-196)


- Satmar, com aprox. 75.000 seguidores.


- Breslov, entre 20.000 a 30.000 seguidores


- Gur (popular em Israel), com aproximadamente 20.000 seguidores


Existem outros grupos famosos como Belz, Vizhnitz (leia-se Vijinitz), Bobov, Skver etc.


E… há os grupos menores como Alexander, Boyan, Nadvorna, Sadigura, Tosh, Spinker, Chernobyl (sim… Chernobyl...veja bem...), Dushinksky, etc, etc, etc.




O REBE


O Satmar Rebe de Nada Ortodoxa foi interpretado pelo ator Eli Rosen. Eli era hassidico, de Williamsburg e foi ele que ensinou os atores yidish e demais maneurismos da comunidade hassidica



O líder de um grupo hassídico é chamado de Rebe (ou Rebbe...soletre como quiser). Em uma comunidade hassidica, a palavra do Rebe é a palavra final. A decisão do Rebe é a decisão final. Ninguém faz nada relevante (mudar de bairro, escola, emprego, decisões da vida em geral etc) sem consultá-lo antes. Não se pode questionar suas decisoes e quem discorda dele em público…well… sofre...consequências, digamos assim… as vezes leves e as vezes….well…. beeeeeeeeeem sérias e graves.


No GERAL, cada grupo hassídico tem seu próprio Rebe.


Mas… como o mundo é mais complexo do que sonha nossa vã filosofia, alguns grupos hassídicos tem dois Rebes.


Isso acontece – na maioria das vezes - quando um líder hassídico falece sem deixar claro o nome de seu sucessor. Quando isso acontece, pode se iniciar uma disputa entre familiares que querem ser o novo rebe e as vezes, metade do grupo segue um concorrente e metade segue o outro. Aí o grupo se divide. Todos mantém os mesmos costumes, obviamente, somente se dividem sobre QUEM consideram ser o rebe do seu grupo. É um fenômeno raro, mas acontece.


Exemplos: Bobov 45 e Bobov 48. O antigo Rebe de Bobov faleceu sem deixar um sucessor (ele soh tinha filhas), … depois de muuuuuuuuuuuuuuita novela que foi discutida em jornais (e blogs), o grupo Bobov se dividiu oficialmente e cada metade possui seu proprio rebe.


O grupo hassídico Satmar se dividiu em 2006 após o falecimento do antigo rebe, R. Moshe Teitelbaum (que não deixou claro quem deveria sucedê-lo) e hoje possui dois rebes, os irmãos R. Aaron Teitelbaum, em Kyriat Joel e R. Zalman Teitelbaum, em Williamsburg.


Gur também teve uma pequena divisão ano passado, 2019, onde o irmão do rebe de Gur discordou do currículo escolar das yeshivas do grupo e com algumas centenas de seguidores, criou sua própria hassidut que leva o mesmo nome.


As vezes essa divisão é pacífica, e as vezes...well... não.


Até onde eu saiba, esses são os únicos grupos que possuem mais de um rebe hoje em dia.




WILLIAMSBURG

Williamsburg é o lar de vários grupos hassídicos, o maior deles Satmar. Embora a série não fale explicitamente em qual hassidut Esty nasceu, fica a impressão que ela era satmarish.


1 hora de caminhada Williamsburg para conhecer melhor o local: https://www.youtube.com/watch?v=iSsL6LK-4_k





FAMÍLIA DE ESTY

Na série, Esty é chamada de orfã, mas tanto seu pai quanto sua mãe estão vivos.


Isto se dá ao fato de que o pai de Esty é considerado um caso perdido de alcoolismo e a mãe fugiu da comunidade hassídica pouco depois do nascimento da filha. Esty foi então criada pelos avós, como se fosse orfã.





MÃE DE ESTY

Quem deixa a comunidade hassídica sofre consequências, você pode ler mais a respeito na resenha que fiz sobre One of Us: https://www.vidapraticajudaica.com/single-post/2017/10/22/Documentario-One-of-Us---Review


Porém hoje em dia, ano de 2020, há exceções para com a regra de cortar relacionamento com quem deixa o hassidismo. Pouco a pouco, a conta gotas, alguns pais e mães hassídicos entendem que este estilo de vida não é o ideal para todos e mantém contato com filhos que deixaram a comunidade.





MOISHE


Jeff Wilbusch, como Moishe. Jeff nasceu e cresceu na comunidade Satmar de Meah Shearim, Israel. O mais velho de 14 irmaos, Jeff deixou o hassidismo ainda quando era adolescente, indo morar com parentes judeus que eram mais modernos. Jeff fala yidish como idioma materno.


Moishe é o personagem interpretado pelo ator


Diferentemente da mãe de Esty, Moishe saiu da comunidade, quebrou a cara e retornou. O personagem realmente é o mais interessante de toda a série, na minha opinião.


Aparentemente, Moishe tinha problemas com o modo de vida estrito, abandonou a mulher e filhos, provavelmente nunca pagou pensão, e se viciou em jogatina (ou já era viciado antes).


Fora da comunidade, Moishe deve ter comido o pão que o diabo amassou e sem ter para onde ir, voltou.. Sem bússola ética, ele não sabe muito bem a diferença entre certo e errado, pois obedece seu rebe sem planejar muito, apenas alvejando o resultado final de sua missao. Moishe se tornou um tipo de jagunço. Com identidade dúbia, ele acredita que rituais religiosos são importantes ao mesmo tempo que mantém contato com o submundo dos jogos e demais praticas duvidosas que desafiam a lei.


A cena mais curiosa de Moishe é quando ele mergulha, nu, em um rio em Berlim. Quem é ortodoxo entendeu claramente a cena: o desejo de fazer um ritual (ir para mikva, que no caso, era o rio) como forma de aplacar seu sentimentos de culpa, somados a falta de direção ética não lhe permitiu ver o crime ao pudor que estava fazendo…


Moishe é como uma imagem refletida em um espelho quebrado.





“Há sempre um Moishe”

Agora… há uma cena em Esty diz para sua mãe que está com medo da perseguição de Moishe e a mãe lhe responde “Há sempre um Moishe” e descreve como sofreu na mão dos “moishes” do passado quando deixou a comunidade.


Não quero que vocês pensem que grupos religiosos judaicos são a favor disso, mas… a realidade é que na surdina da noite, em ALGUNS grupos hassídicos, há sim sempre os “moishes” a beira da lei, confusos, ignorantes, dúbios, bipolares, com diferentes níveis de problemas psicológicos e que fazem coisas repreensíveis porque pensam que é o certo.


Eu sei que no Brasil, com uma comunidade judaica microscópica, a maioria dos judeus brasileiros talvez nunca nem suspeitou que tipos como Moishe existem, mas fora do Brasil, onde há milhões de judeus e quando um Moishe é pego cometendo algo fora da lei, ele se torna assunto tanto de jornais NÃO JUDAICOS, quanto judaicos… e não se esqueçam dos blogueiros judeus… eles existem. Poucos anos atras um empregado de um certo rebe tocou fogo na casa de um ex-seguidor, com o ex-seguidor dentro! Saiu em todos os jornais. Eu poderia colocar links e mais links aqui de historias semelhantes, mas... fugiria demais do tema do post. Em resumo: os "moishes" existem e alguns fazem muito pior a seus desafetos do que o personagem de Jeff fez com Esty Wilbusch.






YANKY


Yanki foi interpretado pelo ator Amid Rahav. Amid serviu o exercito israelense por 3 anos antes de ingressar na carreira artistica.

Ooooooooooooohhhhh… Yankyyyyyyy! Yanky é o perfeito ‘good jewish boy’!


Criado com todos os mimos imagináveis e super protegido do “mundo lá fora”, ao ponto de nunca ter tocado em um smartphone, Yanky não possui muito senso crítico, pois aparentemente nunca teve que pensar sozinho ou ter conflitos quando era solteiro.


Ingênuo, sincero, meigo… Yanky é um personagem que crescerá bastante na série caso venham a fazer uma segunda temporada. Podem apostar.





O PAPEL ALUMINIO

Essa foi a unica cena que me ofendeu na serie inteira (escrevo esse paragrafo em teclado americano, sem acentos ou cedilha), pois soa como uma provocacao. Se nao existissem ex-hassidim no elenco, eu deixaria passar, pois seria apenas erros de diretores nao-judeus. Mas, como foi notado acima, Eli Rosen foi um tipo de consultor de todas as cenas envolvendo costumes judaicos. Essa cena eh sobre os acontecimentos durante o feriado de Pessach. Em Pessach, muitas familias judias tem o costume de cobrir parte da cozinha com papel aluminio, porem, nessa cena, levaram isso ao auge do ridiculo. Cobriram a cadeira para mostrar exagero (isso eh provocacao pura) assim como cobriram todo o fogao e o aquecedor de ar que estah atras de Esty.


Neste post eu escrevi um pouco sobre cobrir superficies da cozinha em Pessach. A cobertura mais barata eh papel aluminio, mas quem tem uma grana a mais, cobre com outros materiais. Sim, eh possivel casherizar a cozinha para Pessach sem uso de papel aluminio, mas... quem estah acostumado a essa chumra (chumra: costume que vai alem do que a halacha exige) continuarah a faze-la.


Todos os anos eu mostro fotos da minha cozinha em Pessach na pagina de Facebook do Vida Pratica Judaica. Estes sao dois posts que fiz para o blog alguns anos atras:


https://www.vidapraticajudaica.com/single-post/2015/04/08/Cozinhas-e-papel-aluminio


https://www.vidapraticajudaica.com/single-post/2015/04/07/Pessach-Vamos-falar-de-papel-aluminio






O BONÉ


Já que falamos de Moishe e Yanky, vamos falar desses bonés. É risível, eu sei, mas o propósito do uso do boné foi para que não fossem facilmente reconhecidos como “os judeus”. Pode-se esconder os peot (os cachinhos) sob o boné, assim como esconder parcialmente o rosto abaixando a aba do boné e até mesmo parecer um pouco…como direi… normal. Afinal de contas, dois caras de kipá em Berlim chamam mais atenção do que dois caras de boné.





A SOGRA

Aquilo é pura fantasia, gente. Não existe. O comportamento da sogra de Esty foi feito somente para adicionar drama na história, só isso. No Judaísmo é extremamente proibido se intrometer na vida íntima de um casal, e o comportamento da sogra de Esty é algo que simplesmente não existe na vida real, podem ficar tranquilos. Apesar das yidishe-mames hassídicas serem criaturas que literalmente vivem para seus filhos, elas não se intromentem daquela maneira no casamento deles.





AS ROUPAS

O figurino foi muito bonito, mas pecou em alguns dealhes. Durante a semana, tanto hassidim quanto não hassidim, se vestem de forma normal, mas no Shabbat… wow… na cultura ashkenazita, uma forma de honrar o Shabbat é se vestir bem. E fazemos o possível para nos vestirmos SUPER BEM no Shabbat, assim como nos feriados. O figurino masculino estava impecável, mas o feminino… vestiram todas as mulheres, inclusive Esty, como uma vovó de 70 anos no Shabat e em Pesach… na vida real não é bem assim. Hassídicas americanas se vestem SUPER BEM em Shabbes. Sem falar que aquela peruca de Esty… oh céus… não. Uma judia hassídica jovem, principalmente recém casada (pq está toda feliz em usar peruca), não usa uma peruca feia como a que ela usou. Acreditem.






O RASPAR DE CABELOS

Foi uma cena carregada de emoção e muita, muita tristeza.


Ok, vamos lá: um dia APÓS o casamento, em ALGUNS grupos hassídicos (como Satmar, por exemplo) a jovem casada tem que ter seus cabelos cortados bem curtinhos. Eu nao conheci nenhuma ainda que tenha tido seus cabelos raspados com a maquininha, todas as que conheco tiveram os cabelos cortados bem curtinhos e com o passar do tempo, continuam cortando sozinhas ou com ajuda e uma outra mulher.


Diferentemente do que foi mostrado na série, o corte de cabelo é um momento entre mãe e filha ou entre jovem e uma mulher de confiança da comunidade.


Na vida real, crianças não ficam presentes quando o cabelo da jovem casada é cortado. Na vida real, a jovem casada é tratada com sensibilidade e não como uma ovelha tendo seu pêlo raspado de forma insensível.


Há grupos hassídicos (Lubavich, Breslov, Alexander etc) que NÃO seguem essa prática de raspar cabelos e as mulheres casadas podem deixar seus cabelos crescerem, porém tem que cobri-los.


Essa prática de raspar cabelos é algo novo. Ao perguntar a algumas hassídicas o motivo, fui informada que ela foi firmada após o Holocausto.


Durante o Holocausto, mulheres que tinham cabelos raspados chamavam menos a atenção dos soldados e eram menos suscetíveis a se tornarem vítimas de estupro.


Pela Torá e Talmud não há absolutamente NADA que sugira que uma mulher judia deve raspar seus cabelos ao se casar. Na verdade, no Talmud, tratado Shabat, acessórios e arranjos para cabelos femininos são discutidos amplamente, até mesmo revelando que judias do passado faziam um tipo de aplique (com cabelos naturais ou de animais, como rabo de cavalo) para que a cabeleira parecesse mais cheia e saudável. Nunca passou pela cabeça de Chazal (sábios do Talmud) que um dia mulheres judias teriam seus cabelos raspados ou cortados assim, basicamente contra a vontade delas (elas cortam porque tem que cortar, nao porque o desejo partiu delas).


Então, na vida real, o corte de cabelo pós casamento não é exatamente feito como foi mostrado na série.


Agora… uma coisa foi real: eu não sei as estatísticas, mas é sabido que boa parte das jovens casadas que tem seus cabelos raspados choram bastante e tem muita dificuldade em aceitar o novo visual…





SALA DE YICHUD (leia-se irrud)

Na cultura ashkenazia, após a cerimônia de casamento, o casal vai para uma sala, onde ficam sozinhos e tem alguns minutos para conversar, comer e descansar um pouco antes de se dirigirem a festa. Ashkenazitas jejuam no dia do casamento, então depois de jejuar o dia inteiro e passar pela emoção de se casar, nada mais natural do que alguns momentos para descansar e se alimentar, não?


Na sala de yichud, há cadeiras, uma mesa e alguns alimentos leves. Na série, serviram sopa… mas geralmente há frutas, chocolate, água ou algum outro tipo de bebida não alcóolica. Depois da sala de yichud, o casal vai para a festa, ou tirar fotos (enquanto os convidados se alimentam) etc.





POR QUÊ A AVÓ DE ESTY DESLIGOU NA CARA DELA?

De uma forma GERAL, quem abandona a vida hassídica é cortado da família. Em casos mais extremos, os pais até mesmo fazem rituais fúnebres, simbolizando que para eles, tal filho(a) está morto(a).


É por isso que a avó de Esty não falou com ela ao telefone quando reconheceu sua voz. Apesar de amar a neta mais do que tudo no mundo, mais do que a própria vida, Esty tinha abandonado a comunidade, e deveria pagar o preço.





MAS SER HASSÍDICO É TÃO RUIM ASSIM?

Não. E não mostrar o lado bom do hassidismo foi o maior erro da série. Porém… como a série é uma obra de FICÇÃO, onde só ALGUMAS PARTES são baseadas em fatos reais, eu entendo perfeitamente o porquê não mostraram.


Ser hassídico é pertencer a uma grande família. E eu não falo só de família de sangue, falo de família a nível COMUNITÁRIO. Hassidim são o grupo judaico onde há o maior nível de chessed (atos de bondade) de uns para com os outros. A dor de um é a dor de todos. A necessidade de um é a necessidade de todos. Todos se ajudam, a um ponto inimaginável para quem não nasceu nesse meio. Se alguém tem um problema mais grave, o qual necessita de orientação do rebe, o rebe vai fazer ligações, vai contactar pessoas que conhecem outras pessoas que conhecem outras pessoas até o problema seja resolvido. Rebes são pessoas de grande influência, acreditem.


Ser hassídico é ter uma identidade definida, indubitável. É ter uma tradição fixa, um histórico, um lugar para chamar de seu.


Vou dar um exemplo divertido… se você gosta de rock, o que você sentiria se toda sua família fosse roqueira? Seus pais, irmãos, avós, bisavós, primos, tias e tios? Imagina se seus professores, amigos de escola, os funcionários do supermercado, seus vizinhos, todos curtissem exatamente as mesmas bandas que você e vocês se encontrassem uma vez por semana para suas músicas favoritas com muito fervor e animação, pq afinal de contas, todos amam o mesmo rock que você ama? Seria o paraíso, certo? Bom, você entendeu um pouco de como é ser parte de uma comunidade hassídica.