Aliá (Aliyah) - Muitos Vão e Muitos Voltam



Aliá que não deu certo. Entenda o motivo porque muitos que partem para Israel acabam voltando aos seus países de origem. Este NÃO É UM POST DE HASBARÁ. Há centenas, milhares de posts, vídeos, podcasts e artigos sobre as vantagens de morar em Israel. Este post é sobre as desvantagens. Não é um assunto legal, mas deve ser discutido para dar uma visão mais ampla do motivo pelo qual tantas pessoas tentam, se esforçam e se sacrificam para morar em Israel e no final tem que dolorosamente reconhecer que não conseguem, e aí, voltam pra Diáspora.



MUITOS VÃO, E MUITOS VOLTAM

Se você está pensando em fazer Aliá, se prepare bem, pois um único detalhe mal pensado pode iniciar uma reação em cadeia de fatos que irão te desanimar.


A primeira coisa que vem a mente é dinheiro, pois o custo de vida alto devido aos altos impostos israelenses faz com que salários considerado invejáveis no Brasil se tornem básicos apenas para sobreviver em Israel. Mas saiba você que o dinheiro curto é apenas um dos fatores que manda muitos olim (novos imigrantes) de volta aos seus países de origem.


A maioria dos olim que se arrependem de terem feito aliá preferem dizer seus motivos de forma anônima em fóruns de mídias sociais. Retornar pra casa depois de uma aliá falida não é motivo de orgulho pra ninguém. Neste processo a pessoa investiu todos os seus sonhos, motivação, potencial... e ver tudo desmoronando ao ponto de tornar tal sonho inviável é uma experiência triste e as vezes, até mesmo traumática.




FALTA DE PLANEJAMENTO

A falta de planejamento é o principal motivo pelo qual muitos olim se vêem sem saída frente aos problemas e por isso voltam pra suas casas na Diáspora. Embora a Agência Judaica e Nefesh B'Nefesh (uma agência voltada exclusivamente a dar informações a potenciais olins) se esforcem fornecendo palestras, aconselhamento e o que mais for necessário para uma imigração segura, muita pessoas ainda acabam indo para Israel levadas apenas pela emoção... e pagam um preço alto depois.


Planejamento é a chave de uma aliá bem sucedida.




BRASIL X PAÍSES DE PRIMEIRO MUNDO

Sim, é verdade. Olim brasileiros tem mais chances de ficar em Israel do que olim de países de primeiro mundo. O dia a dia no Oriente Médio é meio caótico, e como bons brasileiros, o caos é apenas um detalhe da nossa rotina. Desta maneira, não é trânsito, salário baixo, barulho e muito menos a grosseria de alguns provedores de serviço que vai assustar o bom brazuka. Olim norte-americanos e europeus tem mais dificuldade em aceitar certas coisas, pois de uma forma inconsciente, alguns pensam que Israel é apenas uma extensão dos Estados-Unidos-no-Oriente-Médio, e não é bem assim.


Algumas das razões que mencionarei abaixo podem servir para todos os olim em potencial, mas algums doem mais nos corações de olim do primeiro mundo, porque eles são mais sensíveis que nós, brazukas natos!



RAZÕES PARA VOLTAR:


1. DINHEIRO

a) diploma não significa dinheiro = na Diáspora estamos acostumados a ver pessoas em cargos importantes receberem salários altos. Não é bem assim em Israel. Frequentemente vemos médicos, dentistas, até mesmo diretores de hospitais que trabalham em Israel receberem salários que são considerados medianos ou até mesmo baixos se comparados com salários pagos para os mesmos cargos nos EUA. E isso assusta, porque o custo de vida em Israel é mais alto que o custo de vida nos EUA. Não se iluda com salários que soam magnifícos aos ouvidos brasileiros, pois tais só são bons para o custo de vida no Brasil e não em outros países. Em pesquisas que tenho feito com meu marido, pois também queremos fazer aliá, concluímos que o custo de vida em Jerusalém é 25% maior que o custo de vida em Montreal, onde moramos hoje. Essa é uma lista da CNN feita em 2020 sobre quais são as cidades mais caras para se viver. Note que morar em Tel Aviv é mais caro que em Tóquio.


Cidades mais caras para se viver em 2020:

(https://www.cnn.com/travel/article/worlds-most-expensive-cities-2020/index.html)

1. (tie) Singapore

1. (tie) Osaka, Japan

1. (tie) Hong Kong

4. New York City, New York

5. (tie) Paris

5. (tie) Zurich, Switzerland

7. Tel Aviv, Israel

8. (tie) Los Angeles, California

8. (tie) Tokyo

10. Geneva, Switzerland



b) impostos = manter a segurança do Estado de Israel é algo que custa muito caro aos cofres públicos. E no final das contas, é o povo que sustenta tais cofres com seus impostos. Muitas vezes produtos feitos em Israel custam um preço alto lá e um preço mais baixo quando o mesmo é exportado e vendido aqui no Canadá ou nos EUA, por exemplo. A diferença no preço se dá devido aos altíssimos impostos israelenses. Além dos impostos, há um certo monopólio de fornecedores de produtos para Israel, e até onde eu ouvi falar, nem o governo pode mexer nisso hoje em dia. Esse monopólio obviamente leva a falta de competição, e todos sabemos o resultado no bolso do consumidor. E outro grande problema que gera preços altos é a hostilidade que Israel sofre de países vizinhos, que no final das contas, também acaba aumentando o preço dos produtos.


Paga-se também imposto para transferência de valores do país onde moramos para Israel, ou seja, um brasileiro que vende sua casa, negócio, carro etc para fazer Aliá tem que pagar um valor em impostos para o governo brasileiro antes que o dinheiro seja transferido para Israel. Meu marido e eu quase caímos pra trás quando vimos o valor dos impostos que devemos pagar ao governo canadense quando chegar nossa hora de fazer Aliá. Só pela fé e pelo amor mesmo...




IDIOMA

Olim que não fala hebraico fluentemente sofre mais, porque vê suas chances de progredir profissional e socialmente diminuir a cada dia. Todos os contratos, documentos oficiais do governo ou bancários, contas, recibos e boletos estão em hebraico. Meu conselho: nunca assine nada sem um advogado ou ajuda de uma pessoa de confiança que possa traduzir o que você está assinando. E de quebra, não faça nenhum contrato verbal, tudo tem que ser escrito em papel... em hebraico. Muitos olim que moram há décadas em Israel dizem que até hoje não entendem seus documentos bancários.


Além do hebraico, falar inglês ajuda bastante em todos os sentidos.




SOLIDÃO

Nem tudo o que brilha no Facebook é realmente brilhante na vida real. As vezes temos a impressão de que todos os olim são muito cooperativos e bacanas nas mídias sociais, mas quando chega a hora de conhecer alguns pessoalmente...well... a coisa muda e quem era tão legal online pode parecer anti-social pessoalmente e quem prometeu que iria ajudar online pode não responder suas mensagens quando você chegar em Israel.


Não pense também que você será super-bem-vindo-e-amado na sociedade israelense. Não. Você não será. É certo que com o tempo, fazemos colegas e se tivermos sorte, até mesmo amigos quando mudamos de país, mas... não é algo que devemos ter por certo de que irá acontecer, porque as vezes não acontece. O israelense tem seu próprio círculo social composto de israelenses com quais cresceu e conhece desde criança.... e aí chega um imigrante em Israel... tipo... independente se o imigrante é americano ou brasileiro, ele é um imigrante. Tal imigrante não terá um círculo de amigos próximos como os israelenses possuem. TALVEZ, com o passar do tempo (quando o hebraico do olê melhorar), e dependendo do bairro onde o olê vai morar, ele pode até fazer boas amizades, mas não é sempre que isso acontece. E é exatamente por isso que muitos olim se estressam e cometem o grande erro de se fechar em "guetos" brazukas ou de olim de seus países de origem, fazendo grupinhos que os impedem ainda mais de se misturar a sociedade isralense.

Alguns olim chegam em Israel sozinhos e não conseguem se inserir socialmente em Israel... e aí acabam solitários e tristes e...adicionam esta razão a outras que o farão voltar pra sua casa na Diáspora. Deixar a família e amigos em nossos países de origem não é fácil.





DINHEIRO, IDIOMA E SOLIDÃO são as grandes três razões porque muitos olim desistem e voltam aos seus países de origem. Abaixo, falarei dos "detalhes", que são as coisinhas que vão se acumulando, acumulando e no final, acabam ajudanto a formação da gota d´água para a desistência de muitos que sonharam passar o resto da vida em Israel.






GROSSERIA

Eu tenho uma teoria, de que o israelense está tão acostumado a se sentir sob stress de ser exterminado a qualquer momento por guerras, bombas e ataques terroristas, que isso o torna menos tolerante do que pessoas de vários outros países.


Lidar com alguns comerciantes e provedores de serviço israelenses as vezes é um desafio que deixaria até mesmo Buda enfurecido. É uma coisa comum que caixas de supermercado, eletricistas, bancários etc etc etc tratem o olê como lixo. Não farei rodeios, é isso mesmo. É certo que isso não acontece todo dia e acabamos lidando com funcionários do comércio que são até educados. Mas não se surpreenda se algum provedor de serviço simplesmente perder a paciência porque você fala hebraico lentamente ou porque ele falou e você não entendeu e aí ele pode começar a gritar com você. A resposta para isso não é nem gritar de volta, mas reclamar com algum gerente, dono do estabelecimento e até mesmo no Consumer Council, que é tipo um PROCON de lá. Não sei se vai resolver a situação, mas pelo menos você dormirá melhor a noite sabendo que fez alguma coisa para diminuir o abuso que alguns consumidores sofrem. Novamente... abusar de clientes não é uma regra, é uma exceção, mas... é bom estar preparado. De uma forma GERAL, alguns israelenses pensam que sabem de tudo o que é para ser sabido no universo. Caso você encontre alguém assim, tenha paciência. No meu caso, porque sou

Judia por opção, a coisa vai além, porque alguns (infelizmente) acreditam piamente que só pelo fato de terem nascido em Israel eles sabem de TUDO sobre TODAS AS COISAS (esses são os que menos sabem, na verdade) e querem me ensinar com ares de autoridade os conceitos mais básicos do Judaísmo ensinado em Jardins de Infância... quando eu tô com paciência, eu ouço... quando não estou, eu corto logo a conversa e faço um desafeto. É a vida.


Alguns olim que chegam em Israel mantém a mesma personalidade que possuiam na Diáspora. Alguns, porém... mudam... e não é emocionalmente pra melhor. Eu já vi com meus próprios olhos norte-americanos que se tornaram grosseiros com o tempo, e me disseram que essa é a única maneira que eles tem de ficar por lá sem ter uma crise de nervos.





ISRAEL É PARA OS JOVENS

Este é um assunto que nem eu sabia até ano passado, quando comecei a planejar a minha Aliá. Aprendi sobre este assunto no site da Nefesh B'Nefesh e depois em conversas com olim. Aparentemente, é MUITO difícil que uma pessoa acima de 45 anos consiga emprego em Israel. Ela pode conseguir empregos que paguem bem menos do que ela está acostumada ou empregos abaixo de sua qualificação profissional... mas raramente, muito raramente conseguirá em emprego dentro de suas expectativas.


Pessoas com mais de 45 anos de idade tem mais dificuldade de encontrar empregos, e as vezes a´te mesmo participar de certos eventos e oportunidades que explicitamente anunciam que possuem limite de idade para 35 ou 40 anos. Alguns olim mais maduros persistem e conseguem seu lugar ao sol, mas outros acabam sucumbindo às feridas causadas pela discriminação de idade e voltam para seus países de origem.


(https://jewishweek.timesofisrael.com/in-israel-older-olim-face-ageism-hurdles/


https://blogs.timesofisrael.com/there-is-no-place-for-ageism-in-israel/ )


Meu conselho para futuros olim mais maduros é: faça um plano bem detalhado de como você espera viver em Israel e pagar pelas despesas de viver lá. E se algum olê em potencial está próximo da idade de se aposentar, eu recomendo de coração que você se aposente primeiro no Brasil (ou onde quer que você more) e aí faça sua Aliá já com essa renda de aposentadoria garantida.




RELIGIOSOS E NÃO RELIGIOSOS

Este é um ponto em que tenho dúvida de como funciona. Na comunidade religiosa, é comum que nos aproximemos uns dos outros e nos apoiemos. Religiosos possuem todo um sistema de apoio comunitário baseado em chessed (atos de bondade) e visando cumprir mitzvot. Sendo assim, se um olê religioso estiver mal financeiramente, judeus religiosos que o conhecem podem ajudá-lo ou apoiá-lo emocionalmente. Palestras, aulas, envolvimento em mitzvot comunitárias, organizações religiosas de tzedaka (responsabilidade social) etc etc etc... a rotina religiosa pode ocupar grande parte do tempo livre de um olê e diminuir seu sentimento de solidão no novo país.


Mas... e como funciona para olim não ortodoxos? Eles possuem um sistema de apoio de amigos ou conhecidos? Eu realmente não sei.




IDENTIDADE

Seu senso de identidade pode ser questionado. Quem é Conservadox (Conservative + Orthodox = Conservadores que observam Shabat) podem simplesmente ser chamados de "hiloni" (não religiosos) por seus empregadores e serem ordenados a trabalhar no Shabat.


Quem se acha haredi na Diáspora, pode descobrir que será visto como um ortodoxo comum em Israel e ter que se esforçar para aumentar sua observância religiosa, se quiser ser respeitado nas comunidades haredis de lá (no geral, haredim israelenses são mais hardcore que os da Diáspora).


Quem se converteu ao Judaísmo na Diáspora terá sua identidade questionada pela Rabanut quando chegar a hora de depender deles para casamento ou qualquer outro aspecto da vida religiosa que necessite do aval deles.


E eu tenho a IMPRESSÃO que a comunidade ashkenazita é muito mais aberta que a sefaradita. Saberei melhor quando me mudar pra lá, mas tenho essa impressão...





Sendo assim... se você pretende fazer Aliá um dia, planeje e planeje bem. Quanto mais planejamento, mais chances de ter uma Aliá bem sucedida.



Kol tov,



Esther


vpjudaica@gmail.com









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