Chanuká Natalizado? Io Saturnália?

Quando a gente se converte ao Judaísmo, há coisas que devemos falar e há coisas que... é melhor não falar. Não que seja proibido se expressar, não é isso. O problema é que se falamos tudo o que pensamos, podemos perder amizades preciosas. E como Rei Salomão bem explicou, é mais fácil construir uma cidade do que reconquistar um amigo perdido. Então... as vezes é melhor deixar a coisa como está e fechar a boca.


O Natal americano e o Natal brasileiro são festas totalmente diferentes. Antes de me mudar pro Canadá, eu pensava que a maior diferença estava no clima (neve por aqui, verão por aí)... ledo engano... leeeeeeedo engano... a maneira como nossa cultura brazuka e a cultura dos 'mericanos vivem esse período festivo possuem tradições bem diferentes.


E quando o Chanuká americano cpmeça a se parecer demais com o Natal americano, eu me sinto assim:






MAS DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO, ESTHER?????

Tudo começou quando me ofereceram uma receita de "biscoitos de Chanuká" alguns anos atrás.



Biscoitos do quê?



Eu fiquei sem entender....Dezembro... biscoitos... tipo... você não quer dizer... sufganiot? Donuts? Bolinho de chuva ou qualquer outro tipo de quitute frito?


E me olharam como se eu estivesse muito mal informada, pois como é que um judeu civilizado não sabe o que é 'biscoito de Chanukah'? kkkkkkkkkkkkk Ah... esses 'mericanos...



Chanukah cookies (biscoitos de Chanukah)


Enfim, eu agradeci pela receita mas não fiz os tais... "biscoitos de Chanukah", que são biscoitos super decorados em azul e branco.


Hoje em dia podemos encontrar os 'biscoitos de Chanuká' tanto em comunidades hassídicas quanto liberais... basicamente fazê-los está se tornando uma tradição mais e mais forte e popular a cada ano que passa.


Porque recusei fazer os biscoitos? Nos EUA (não sei se na Europa também) há uma forte tradição entre cristãos de que crianças pequenas, juntamente com seus pais, deixem biscoitos doces e muito decorados para Papai Noel... aí a criança vai dormir, sabendo que Papai Noel comerá o lanchinho e deixará um belo presente para criança bondosa!


E foi por isso que nunca fiz e nem pretendo fazer tais biscoitos, porque pra mim, "Chanuka cookies" são apenas uma imitação dos "Christmas cookies".



Christmas cookies (Biscoitos de Natal)



Yo Saturnália!

Sou totalmente apaixonada por história da gastronomia, então embora eu saiba que biscoitos para Papai Noel sejam algo historicamente recente, eles descendem de pratos tradicionais servidos durante o festival de Saturnália, que era tipo uma mistura de Carnaval com Natal que os romanos celebravam a partir de 17 de dezembro. Durante a Saturnália, bolos, pães e biscoitos rústicos com temperos fortes eram tradicionalmente servidos na companhia de outros pratos. Falarei mais desse feriado no final do post.





GINGERBREAD HOUSE (Casa de Gengibre)


Aí depois de conhecer os famosos 'biscoitos de Chanukah', me apresentaram para as... CASAS DE CHANUKÁ!!!!


Aí meu queixo caiu. Embora não exista essa tradição no Brasil, eu já assisti inúmeras animações e filmes natalinos e devido a isso, sei que essas casinhas de gengibre decoradas são um dos símbolos mais fortes do Natal europeu e americano. A ideia da casa de gengibre decorada vem do conto de fadas Hansel e Gretel (Joãozinho e Maria) que são abandonados pela madrasta malvada na floresta e acabam em uma casa feita de doces que pertencia a uma bruxa. No final, as crianças vencem a bruxa e moram felizes na casa açucarada!




JUDEUS DE NASCIMENTO, BAAL TESHUVA E CONVERTIDOS

Farei um esclarecimento neste post: a maioria dos judeus de nascimento, principalmente os ortodoxos, não possuem a mínima ideia do que é tradição de Natal. Se eles chegam em um mercado e há algum produto alimentício com selo de cashrut, eles compram. Se há biscoitos de Chanuká e casinhas de Chanuká vendidas por empresas alimentícias judaicas, com selo de cashrut, eles compram.

Já um judeu ou judia que é baal teshuva (nasceram em lares NÃO religiosos e se tornaram religiosos em vida adulta) já sabem de algumas tradições natalinas e evitam certas coisas...

Agora com gerim (convertidos), aí o buraco é mais embaixo porque sabemos muito bem o que é tradição cristã e o que não é...então... quando vemos esse tipo de coisa em Chanuká, ficamos meio sem saber o que fazer.




VOLTANDO PARA AS CASINHAS DE GENGIBRE

Saibam vocês que as tais 'casas de Chanuká' se tornaram uma coisa totalmente comum na comunidade judaica americana. E eu NÃO ESTOU FALANDO DE COMUNIDADE NÃO RELIGIOSA! Eu falo de comunidade ortodoxa mesmo, tanto famílias quanto empresas alimentícias judaicas (de donos ortodoxos) preparam suas 'casas de Chanuká'....e aí eu vejo essas casinhas e novamente faço essa cara:


Obviamente NÃO SÃO todos os judeus que decoram e comem as casinhas, mas eu posso garantir a vocês que a cada ano que passa o número de famílias judias que adotam essa prática aumenta. Há até mesmo sinagogas que promovem a decoração das casinhas como um programa para pais e filhos...


Vamos as imagens e tire suas conclusões:



Casinha de Gengibre de Natal (Gingerbread House)





Casinha de Chanuká (Chanukah House)





Não sabe fazer casinha de Nat...ops, de Chanuká? É só comprar um kit e montar com a família!

Super kosher! xD






FESTA DAS LUZES

Aí....entra a decoração. Eu DEIXO BEM CLARO A TODOS QUE EU DECORO MINHA CASA PARA CHANUKÁ. Eu vejo as decorações de Estrela de Davi, chanukias etc etc etc e aí compro mesmo. E ainda coloco adesivos nas janelas, assim quem passa na rua pode ver minha decoração também. No começo fiquei um pouco insegura, mas meu marido disse que era o que todo mundo fazia, então... já que é uma maneira de deixar a casa mais bonita para o feriado, ok. Poréééééééééém.... há algumas famílias judias que se empolgam bastante na decoração e os vizinhos não judeus ficam um pouco confusos sobre o que está acontecendo (assim como eu ficaria confusa também, lembro que na primeira vez que vi uma chanukiah gigante acesa na Avenida Paulista eu pensei que judeus estavam fazendo um ato ecumênico, homenageando o Natal).









Enfim... eu acho muito bonito essas decorações e se algum(a) amigo(a) meu fizesse na casa dele(a) eu elogiaria, mas tenho que confessar que há aquele 1% de mim que não se sente muito confortável com tantas milhares de luzinhas juntas porque me lembram decoração de Natal.... enfim... é assim que me sinto... eu não sei o que pensar sobre isso... apenas vejo e deixo estar. Estariam judeus indo longe demais na decoração de Chanuká ou é paranóia minha?





PRESENTES DE CHANUKÁ

No meu primeiro ano de casamento, quando chegou Chanuká, meu marido me deu um presente por dia... foi muito legal receber 8 presentes! Uau! Foram presentes simples, mas foram... PRESENTES! A intenção é o que vale! Fiquei emocionada.


Aí disse a ele que não tinha comprado nada porque nunca tinha aprendido sobre presentes de Chanuká no curso de conversão. Ele riu e disse que não tinha problema, que era um costume novo... o costume original, do tempo dele, era dar Chanuká gelt (leia-se guelt, que é dinheiro, em yidish) para as crianças. O tempo passou e de repente as pessoas começaram a dar presente para os filhos na primeira noite de Chanuká e depois a coisa evoluiu ao ponto de que algumas famílias se presenteiam por 8 dias consecutivos.


É raro, mas há algumas pessoas (crianças e adultos) que até se magoam se não receberem 8 presentes, um em cada noite de Chanuká.


Aí eu tive que perguntar ao maridex "Mas dar presente é uma coisa que soa meio... você sabe... natalina?" e ele riu de novo, disse que no fundo ele também achava isso, mas... se dar presentes aumenta a alegria do feriado, por que não presentear?


Bom...... aquele Chanuká passou e eu fui pesquisar qual a diferença entre dar Chanuka gelt e dar presentes... tipo... pq os judeus do passado não davam presentes, e sim dinheiro?


Então aprendi que no passado velas eram um artigo de luxo. Azeite de oliva também. Celebrar Chanuká com as 44 velas necessárias para os 8 dias de feriado era algo que exigia grande sacrifício financeiro por parte de famílias mais pobres. O Talmud mesmo ensina que se alguém tiver dinheiro pra comprar OU o vinho pra fazer kidush no Shabat OU velas de Chanuká, deve comprar as velas porque a mitzva de Chanuká é tornar o milagre público (Shabbat 23a).


Então a fim de aliviar os custos do feriado, criou-se o costume de dar Chanuka gelt para crianças, assim elas entregariam o dinheiro para os pais e a família teria como comprar as velas (ou óleo) necessários para Chanuká.


Há um artigo muito legal do Chabad sobre o fato de que é preferível dar Chanuka gelt para crianças e familiares do que presentes: https://www.chabad.org/holidays/chanukah/article_cdo/aid/103084/jewish/Why-the-Chanukah-Gelt.htm


Com o passar dos anos, eu nunca mencionei a palavra 'presente' para o maridex durante a época de Chanuká e esse ano, pela primeira vez, ele não me deu nenhum presente. E acreditem, eu fiquei mais feliz por só curtir a companhia dele, sem distrações ou expectativas, enquanto nos sentamos na sala de estar para contemplar as luzes de Chanuká e comer frituras :)



Moedinhas de chocolate representam o Chanuka gelt

Algumas famílias tem a tradição de dar um pouco de dinheiro para os filhos ou crianças da

sinagoga durante o feriado de Chanuká





AGORA O MOMENTO DA VERDADE:

QUEM BOTOU ESSAS TRADIÇÕES UM TANTO DUVIDOSAS NO JUDAÍSMO AMERICANO? FORAM OS MESSIÂNICOS?


Não. Se prepare para o plot twist: foram as....... crianças judias!


Todos os anos, a coisa vai mais ou menos assim.... pequeno Shloimy e pequena Rivky vêem da janela do carro ou do ônibus escolar a parafernália magnífica que faz parte do Natal americano! Luzes e mais luzes, enfeites e mais enfeites, PRESENTES E MAIS PRESENTES nas vitrines, músicas envolventes (aquela da Maria Carey é hipnotizante, confira: https://www.youtube.com/watch?v=yXQViqx6GMY) ...


Aquilo que vemos em filmes de Natal é realmente o que acontece nos EUA. A parte da decoração espetacular, das músicas maravilhosas, o real clima natalino afetando todos os sentidos... não é ficção, aquilo acontece mesmo. O país inteiro entra em transe durante o Natal.


Aí pequeno Shloimy (diminutivo carinhoso de Shlomo) e pequena Rivky ficam tristonhos porque na visão deles, o mundo inteiro está tão festivo, tão feliz, tão enfeitado... enquanto eles tem que se contentar com uma chanukia que dura meia hora, histórias de guerras entre judeus e gregos e comer frituras.


Shloimy e Rivky perguntam aos pais por que as crianças não judias se divertem mais do que elas... Shloimy e Rivky dizem aos pais que sentem inveja da festa de Natal, que é tãããão linda e cativante....Shloimy e Rivky choram... por que o mundo é tão cruel?


Os pais de Shloymie e Rivky entram em pânico.


O que fazer?


Se gritarem com as crianças, aí elas ficam com raiva de Chanuká, pois passam a associar o feriado com a gritaria dos pais. Se derem sermões e mais sermões, aí correm o risco de achar que Chanuká é uma festa super chata que só gera sermões chatos.


Lidar com crianças na diáspora não é fácil.


Aí, os pais dos pequenos e tristonhos infantes judeus decidem fazer Chanuká mais divertido e dizem que eles não precisam ficar tristes ou com inveja dos presentes de Natal, porque (isso é dito por todo mundo, acredite) "enquanto seu amiguinho não judeu recebe presente em só uma noite, vocês que são judeus vão receber presentes por oito noites! Não é maravilhoso? Yey!"


Ao ouvir isso, pequeno Shloimy e pequena Rivky vão dormir felizes, sabendo que Chanuká é a melhor festa do mundo... e os pais, com suor no rosto de tanta apreensão, sorriem nervosamente...


E aí uma coisa leva a outra... crianças judias ficam de olho grande nos belíssimos biscoitinhos natalinos? "Não se preocupe Shloimye...ima (mãe, em hebraico) vai fazer biscoitinhos muito mais bonitos pra você em casa, tá?"


Aquela casinha de gengibre linda está na vitrine de todas as confeitarias, fazendo com que crianças judias arregalem os olhos de admiração? "Oy vavoy, Rivky...não fica triste, minha filha, mammy vai fazer uma casinha muito mais bonita pra você e aí poderemos decorar juntas, ok?"


E por aí vai.





A ÁRVORE DE NATAL

O fruto desejado, porém ainda proibido: a árvore de Natal.


Apesar do fato de que os pequenos Shloimy e Rivky ficam encantados com as gigantescas árvores de Natal espalhadas pela cidade, mammy e tatte (pai, em yidish.... ou aba, em hebraico) tem limites. E a árvore é o tal limite. Não adianta o número de reclamações, choro, bico ou olhos grandes... a árvore não entra em casa.


Porém... embora a exclusão da árvore de Natal de lares judaicos seja algo óbvio pra mim e pra você que está lendo esse blog, na cabeça de muitos judeus adolescentes e até mesmo jovens, essa exclusão é algo que não faz muito sentido.


Recentemente ao discutir sobre isso com um grupo de amigas, uma delas disse que em uma das classes em que dá aula (em uma escola judaica religiosa), as alunas adolescentes disseram que não conseguem entender porque é proibido ter um pinheirinho dentro de casa e decorá-lo com enfeites de Chanuká. Por que é proibido? Aí haja explicação pra acalentar a frustração destas adolescentes. E ninguém sabe se elas realmente aceitaram a validade das palavras da professora.


Talvez esse será o desafio das futuras gerações de judeus americanos. Quem sabe...







IO SATURNÁLIA!

Como disse acima, agora vou dar uma breve descrição da Saturnália, que era o principal festival romano.


A Saturnália era um festival dedicado ao deus da agricultura, Saturno. Dizia a lenda que Saturno vivia em um lugar maravilhoso, com refeições fenomanais, festas, muita música, onde todos eram iguais e NÃO HAVIA ESCRAVOS (um conceito que era impensável para todas as sociedades do passado), jogatina era liberadada, o vinho era servido em abundância e não havia limites para os prazeres do corpo.


Então no dia 17 de dezembro, os romanos iniciavam seu festival que durava uma semana, terminando no dia 25 de dezembro, a fim de coincidir com o período do solstício de inverno (dia mais curto do ano). No início, o festival durava só 3 dias, mas... como a ressaca devia ser muito grande, extenderam pra 7.


O festival era iniciado com um sacrifício humano (há fontes que afirmam que um porco era sacrificado). E a partir do dia seguinte, escolas, a côrte, locais de trabalho e negócios fechavam as portas. Todos deviam celebrar até a exaustão.


Escravos eram "libertos" e seus donos lhes davam roupas e chapéus como as usadas por homens livres, os chamavam pra comer e beber na mesma mesa, e as vezes seus donos os colocavam no lugar de honra da sala de jantar e os serviam!!!!


A jogatina era liberada, música, barulho e... presentes. Romanos presenteavam familiares durante o festival, dando-lhes velas (que demonstrava o desejo deles de que a luz voltasse ao mundo depois do solstício), e então cantavam, davam mais presentes a familiares e pessoas pobres, decoravam seus lares com folhas verdes (de pinheirinhos hehehe), acendiam velas e serviam jantares grandiosos.


Em muitos lares, o Rei da Saturnália era escolhido. Geralmente uma pessoa de baixa posição social, esse rei tinha que insultar convidados, causar balbúrdia, ordenar absurdos e ter todos os seus desejos atendidos. O rei do caos, digamos assim.


Incorporar o Natal na Saturnália foi uma das táticas da igreja no quarto século da era comum para convencer os romanos que ainda eram pagãos a aceitar o cristianismo.


Io Saturnália! era o cumprimento oficial durantes os festejos.


Deixo links - https://www.history.com/topics/ancient-rome/saturnalia

https://www.britannica.com/topic/Saturnalia-Roman-festival



Ah, já ia me esquecendo...o famoso homem de gergelim (gingerbread man), que também se tornou um grande símbolo natalino? Também é só uma questão de tempo. Na verdade, já começou em alguns lares mais ousados:





E com toda ess história, deixo-vos pensando nos festivais do passado e do presente.




Kol tov,





Esther










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